08 - A Revolução Soviética de 1917 - Agosto

Agosto
A insurreição armada na ordem do dia


O VI Congresso do POSDR (b) que encerrou os seus trabalhos a 3 de Agosto, aponta claramente a preparação das massas para a insurreição armada como a tarefa central do Partido, correspondendo à nova fase da Revolução: a vitória temporária da contra-revolução burguesa.  A táctica do partido consistia em contribuir para o amadurecimento dessas condições e em paralisar e frustar habilmente quaisquer tentativas da contra-revolução de provocar a classe operária para uma acção armada antes de isso ser ditado pelas possibilidades reais.

O Congresso registou ainda que o crescimento do Partido não fora detido, bem como que os acontecimentos de Julho suscitaram a afluência de novos membros operários e camponeses.  O Congresso dirigiu um apelo a todos os trabalhadores, a todos os operários, soldados e camponeses da Rússia, exortando-os a prepararem-se, sob a bandeira do Partido Bolchevique, para o confronto decisivo com a contra-revolução. “O nosso partido avança para esse confronto de bandeiras desfraldadas. Ele tem-nas segurado firmemente nas mãos. Não as baixou perante os opressores e os vis caluniadores, perante os traidores à revolução e os lacaios do capital. Ele continuará de futuro a levantá-las bem alto, lutando pelo socialismo, pela fraternidade dos povos. Porque o nosso Partido sabe que se aproxima um novo movimento e vai chegar a hora fatal para o velho mundo.”

Na nova situação, os bolcheviques tornaram-se o núcleo em torno do qual se realizou a união de todos aqueles que, mesmo que tímida e inconsequentemente, se pronunciavam contra o oportunismo e o nacionalismo no movimento operário. No VI Congresso é admitida nas fileiras do POSDR (b) a “organização interdistrital dos sociais-democratas” que contava cerca de 4000 membros, e muitos outros militantes, entre eles Léon Trotski. E foi ainda feita uma tentativa frustada de unificação com os mencheviques internacionalistas de L. Mártov. 

Com os partidos do socialismo pequeno-burguês totalmente a reboque da burguesia, o partido bolchevique afirma-se crescentemente perante as massas, pois como Lénine destacará na sua brochura escrita no início de Agosto, “As Lições da Revolução ”: “A lição da revolução russa é: não há, para as massas trabalhadoras, salvação das férreas tenazes da guerra, da fome, da escravização pelos latifundiários e capitalistas, senão na ruptura completa com os partidos dos socialistas-revolucionários e mencheviques, na clara consciência do seu papel de traidores, na renúncia a qualquer política de acordos com a burguesia, na passagem resoluta para o lado dos operários revolucionários. Os operários revolucionários são, se os camponeses pobres os apoiarem, os únicos que estão em condições de quebrar a resistência dos capitalistas, de levar o povo à conquista da terra sem indemnização, à plena liberdade, à vitória sobre a fome, à vitória sobre a guerra, a uma paz justa e duradoura.”.

Mas também a contra-revolução não dormia.

Kérenski inicia a preparação das “medidas mais enérgicas contra os bolcheviques”. Constituem-se no exército unidades de choque,“batalhões da morte”, cavaleiros de S. Jorge, etc. Multiplicam-se em Petrogrado as organizações contra-revolucionários, com o fito de liquidar os sovietes, asfixiar a revolução e estabelecer um poder forte, firme, inabalável. Multiplicam-se as prisões, o encerramento de jornais, os fuzilamentos na frente.

Entre 12 e 15 de Agosto é organizada em Moscovo, pela Governo Provisório, a Conferência de Estado. A escolha de Moscovo não foi casual – procurava afastar-se de Petrogrado o centro dos acontecimentos. A Conferência, com 2500 delegados proclama abertamente o seu programa contra-revolucionário: supressão de todos os sovietes e de todos os comités no exército, entrega das funções administrativas “apropriadas pelos Sovietes” aos órgãos municipais, continuação da guerra com a Alemanha “até à vitória com os nossos aliados”, recusa de todas “as reformas sociais e experiências sociais”, e continuação da luta enérgica contra o partido bolchevique, ilegalização deste, repressão maciça contra os seus membros.

Os renegados socialistas dos Sovietes e do Governo Provisório – no máximo – colocaram tímidas objecções a este programa. Mas defraudando as expectativas dos que haviam escolhido Moscovo para a Conferência, 400 000 pessoas fizeram greve só em Moscovo no dia de abertura da Conferência, que decorreu protegida por tropas e cercada por manifestantes. Por todo o país greves, paralisações e comícios marcaram os trabalhos da Conferência. A influência dos bolcheviques nas massas é crescente. Resoluções aprovadas e palavras de ordem afluem do toda a Rússia, fruto da agitação e organização dos bolcheviques.

A Conferência de Estado havia sido escolhida como oportunidade para o golpe de estado contra-revolucionário. A mobilização popular frustara essas expectativas. Mas Kérenski e a burguesia prosseguem os esforços para a instauração de uma ditadura militar.

A 24 de Agosto, Lvov é enviado por Kérenski para falar com Kornílov, comandante-supremo dos exércitos, para garantir o apoio deste à aceleração do processo contra-revolucionário. Mas transporta de volta um ultimato: Kornílov exige, para si, todo o poder militar e civil, “única saída para a salvação da pátria”. O ultimato é apresentado a Kérenski a 26 de Agosto. Nesse dia à noite, ele informa o Governo do rompimento com Kornílov e exige para si próprio poderes ditatoriais. Os ministros democratas-constitucionalistas voltam a abandonar o Governo.

A 27 de Agosto, por ordem do comandante supremo sublevado, Kornílov, o 3º corpo de cavalaria avança sobre Petrogrado, a divisão de cavalaria do Cáucaso avança sobre Tsarskóe Seló e a 1ª Divisão cossaca do Don avança sobre a Gátchina.

O perigo que pairava sobre a revolução agitou as massas, à frente das quais se encontrava o Partido Bolchevique. O apelo do partido aos operários e soldados para que tomassem nas suas mãos a defesa da revolução teve uma resposta calorosa. Os bolcheviques não conseguiram só que a luta contra Kornílov se tornasse uma luta de todo o povo, conseguiram também desmascarar Kérenski como um kornilovista encapotado, que aplicava por outros meios o mesmo programa contra-revolucionário.

Da mensagem do Comité Central do POSDR (b):

(...) População de Petrogrado! Chamamo-vos ao combate mais decidido à contra-revolução! Toda a Rússia revolucionária está com Petrogrado!  
Soldados! Em nome da Revolução, em frente contra o general Kornílov!
Operários! Em fileiras cerradas defendei a cidade da revolução contra o ataque da contra-revolução burguesa!
Soldados e Operários! Em aliança fraterna, unidos pelo sangue das jornadas de Fevereiro, mostrai aos Kornílov que não serão os Kornílov que esmagarão a Revolução mas será a Revolução que vencerá e e varrerá da face da terra as tentativas da contra-revolução burguesa.
Em nome dos interesses da revolução, em nome do poder do proletariado e do campesinato na Rússia liberta e em todo o mundo, como uma família unida, em fileiras cerradas, de mãos dadas, todos como um só homem, contra o inimigo do povo, o traidor à revolução, o assassino da liberdade!
Vós que derrubastes o tsarismo, mostrai que não tolerareis o domínio do protegido dos capitalistas e da burguesia – Kornílov.


A 29 de Agosto, chegam a Petrogrado tropas revolucionárias de Cronstadt e Viborg para defender a Cidade, delegados do Comité Revolucionário de Petrogrado anulam o movimento da Divisão Selvagem e confraternizam com os soldados, mais de 60.000 guardas vermelhos  erguem-se em defesa da revolução em Petrogrado, nas frentes de guerra os comités do exército estabeleceram o controlo sobre os estados-maiores e formam destacamentos para combater a rebelião.

A insurreição de Kornilov é esmagada pela acção decidida das massas – com o partido bolchevique à frente - sem que um único tiro seja disparado.

Confirmando a genial previsão de Lénine, na sua Carta ao Comité Central do POSDR (b) , a resposta decidida e tacticamente acertada dos bolcheviques ao golpe contra-revolucionário transformaria uma situação extremamente perigosa para a Revolução num acelerador das condições revolucionárias para a vitória.

Se todo o mês de Agosto decorreu sob o signo da crescente educação política das massas, os seus últimos dias aceleraram consideravelmente esse processo, introduzindo uma nova correlação de forças na Revolução Russa.  

Como sublinhará mais tarde Lénine, “Mas bastou a «brisa fresca» da kornilovada, que prometia uma bela tempestade, para que tudo o que era bafiento no Soviete se afastasse temporariamente, e para que a iniciativa das massas revolucionárias começasse a manifestar-se como qualquer coisa de grandioso, de poderoso, de invencível.
 
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