07 - A Revolução Soviética de 1917 - Julho

Julho
O fim da dualidade de Poderes

O fracasso da ofensiva na frente da guerra e a tentativa de desarmar os Sovietes (retirando as guarnições revolucionárias de Petrogrado e desarmando os operários) provocaram um agravamento da situação política em Petrogrado e em todo o país.

A 2 de Julho os ministros democratas-constitucionalistas demitiram-se do Governo Provisório. O seu objectivo era provocar uma crise governamental que assustasse os partidos conciliadores do socialismo pequeno-burguês e concentrasse todo o poder nas mãos da contra-revolução burguesa e latifundiária. (ver texto de Lénine “Com que podiam contar os democratas-constitucionalistas ao retirarem-se do Ministério? ”)

A 3 de Julho, apesar dos apelos à melhor ponderação por parte dos bolcheviques, os soldados e operários de Petrogrado avançam para a luta de massas exigindo do Soviete a tomada do poder. A manifestação reúne milhares de soldados e operários – que sofrem ataques a tiro.

Incapazes de deterem a acção das massas populares, os bolcheviques decidem dirigir o movimento (que transportava características insurreccionais) no sentido de uma manifestação pacífica organizada para 4 de Julho.

“Apelo do POSDR (b) aos operários e soldados de Petrogrado convocando uma manifestação pacífica e organizada:

Camaradas operários e soldados de Petrogrado!

Depois da acção declarada da burguesia contra-revolucionária contra a Revolução, que o Soviete de Deputados Operários, Soldados e Camponeses de Toda a Rússia assuma todo o poder nas suas mãos. Tal é a vontade da população revolucionária de Petrogrado, que tem o direito de levar essa sua vontade, através de uma manifestação pacífica e organizada, ao conhecimento dos comités executivos dos sovietes de deputados operários, soldados e camponeses de toda a Rússia, neste momento reunidos! Viva a vontade dos operários e soldados revolucionários! Viva o Poder dos Sovietes! (...) “

O Governo Provisório proíbe a Manifestação e ordena a sua repressão.

“Ordem do Ministro da Guerra e Marinha, A. Kérenski, ao comandante da região militar de Petrogrado, major-general P. Polóvotsev de 4 de Julho:

Ordeno que se ponha imediatamente fim ao aparecimento de bandos de soldados armados nas ruas de Petrogrado. Proceder ao patrulhamento apeado e montado. Caso haja novas tentativas, desarmar imediatamente as unidades participantes, retirar-lhes imediatamente as metralhadoras e enviá-las para a frente. (...) Deve recordar que são inadmissíveis quaisquer vacilações na retaguarda enquanto na frente se procura, com enormes esforços, conseguir o avanço das tropas. (...)”

A grandiosa manifestação que em 4 de Julho se organizou em Petrogrado, absolutamente pacífica, reuniu mais de 500.000 operários, soldados e marinheiros, sob a palavra de ordem “Todo o Poder aos Sovietes!”. A manifestação foi metralhada por unidades militares contra-revolucionárias. As ruas de Petrogrado voltam a tingir-se com o vermelho do sangue do seu povo.

Considerando que as massas já haviam alcançado o objectivo de expressar o sentido inequívoco das massas, o POSDR (b) apela ao fim das manifestações. 

Na noite de 4 para 5 de Julho realiza-se a sessão conjunta do CEC dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados e do Comité Executivo do Soviete de Deputados Camponeses. Até os elementos de esquerda dos partidos conciliadores apoiaram desta vez a criação de um Governo sem representantes da burguesia. Mas a maioria socialista-revolucionária e menchevique impõe o apoio ao Governo Provisório, a condenação das acções dos operários e a política de continuação da guerra imperialista.

A 5 de Julho, um pasquim ultra-reaccionário inicia uma nova campanha de calúnias, com a publicação de uma “notícia” sobre as ligações de Lénine com o Estado-Maior Alemão. O objectivo desta campanha não visava apenas Lénine, mas todo o Partido Bolchevique, responsabilizá-los pelo fracasso da ofensiva de Junho e ao mesmo tempo levantar uma nova onda de “ultrapatriotismo”. (Ler o artigo de Lénine “Onde está o poder e onde está a contra-revolução? ”)

A 7 de Julho o Governo Provisório manda prender Lénine e outros destacados dirigentes do Partido Bolchevique sob a acusação de “organizar uma acção armada em Petrogrado”. A unidade encarregue de o prender tem ordens para o assassinar. São igualmente formalizadas acusações de espionagem a vários dirigentes bolcheviques. O Pravda e outros jornais bolcheviques são encerrados, as Sedes do Partido ocupadas. As unidades militares “contaminadas com o bacilo do bolchevismo” são dissolvidas. Os Bolcheviques recusam  comparecer perante os tribunais, onde não obteriam um julgamento justo. (Ler os artigos de Lénine “Sobre a Questão da Comparência perante os Tribunais dos Líderes Bolcheviques ” e “Carta à Redacção do Proletárskoe Delo ”)

A 8 de Julho o Governo Provisório é remodelado. Kérenski torna-se ministro-presidente, mantendo-se como Ministro da Guerra e Marinha. A 9 de Julho, a sessão conjunto do  CEC dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados e do Comité Executivo do Soviete de Deputados Camponeses reconhece poderes ilimitados ao Governo Provisório, a que chama de “salvação da revolução”.

A contra-revolução torna-se cada vez mais insolente. A 14 de Julho numa manifestação solene e, ao dobre dos sinos de todas as Igrejas de Petrogrado, sepultou não os manifestantes vítimas da contra-revolução mas sete cossacos mortos na repressão da manifestação. Atrás das urnas, os monárquicos e as centúrias negras de braço dado com os dirigentes socialistas-revolucionários e mencheviques do soviete.

A 18 de Julho, o general Kornílov – reacionário - é nomeado comandante-supremo e uma carta enviada aos aliados na guerra reafirmava como inexorável a decisão de continuar a guerra.

A 24 de Julho o CC do partido democrático-constitucionalista autoriza membros seus a participar num novo Governo Provisório, presidido igualmente por Kérenski.

Terminara a Dualidade de Poderes, começava a contra-revolução. A terceira crise política (Ler o artigo de Lénine “Três Crises” ), devido à traição dos dirigentes socialistas-revolucionários e mencheviques dos sovietes, conduziu ao poder único da burguesia. Lénine, no seu artigo “Sobre a Situação Política ” aponta quatro Teses fundamentais: 1) A contra-revolução organizou-se, consolidou-se e, de facto, tomou nas suas mãos o poder de Estado; 2) Os chefes dos Sovietes e dos partidos socialista-revolucionário e menchevique traíram definitivamente a causa da revolução ao pô-la nas mãos dos contra-revolucionários e ao converterem-se a si próprios e aos seus partidos e aos Sovietes em folha de parreira da contra-revolução; 3) Todas as esperanças de um desenvolvimento pacífico da revolução russa se desvaneceram definitivamente. A situação objectiva é esta: ou a vitória da ditadura militar até ao fim ou a vitória da insurreição armada dos operários, que só é possível se coincidir com um levantamento profundo das massas contra o governo e contra a burguesia, com base na ruína e no prolongamento da guerra; 4) O partido da classe operária, sem abandonar a legalidade, mas sem sobrestimá-la nem por um momento sequer, deverá combinar o trabalho legal com o ilegal, como nos anos 1912-1914.

A 26 de Julho começou o VI Congresso do POSDR (b). O Congresso do maior partido político do país teve de realizar-se na semilegalidade, num dos bairros (Viborg) de maior preponderância operária. A imprensa burguesa exige a prisão dos delegados ao Congresso. A 28 de Julho o Governo provisório concede ao Ministro da Guerra o direito de encerrar os Congressos e Reuniões “que possam representar perigo no aspecto militar ou para a segurança do Estado...”. O Congresso transfere-se e termina os seus trabalhos fora de Petrogrado, e Lénine, na madrugada de 31 de Julho, entra novamente na Finlândia, para o seu último e mais curto exílio.

“O ciclo de desenvolvimento da luta de classes e dos partidos na Rússia de 27 de Fevereiro a 4 de Julho terminou. Começa um novo ciclo, no qual entram não as velhas classes, não os velhos partidos, não os velhos Sovietes, mas renovados pelo fogo da luta, temperados, instruídos, reconstituídos pelo curso da luta. É preciso olhar não para trás, mas para a frente. É preciso operar não com as velhas, mas com as novas categorias de classes e de partidos posteriores a Julho. É preciso partir, no começo deste novo ciclo, da contra-revolução burguesa triunfante, triunfante devido ao espírito de conciliação com ela dos socialistas-revolucionários e mencheviques, e que só pode ser vencida pelo proletariado revolucionário.” (Lénine, “Sobre as Palavras de Ordem”)

Acabou o tempo do desenvolvimento pacífico da Revolução, corporizado na palavra de ordem “Todo o Poder aos Sovietes!”. A par do trabalho para alargar a influência do Partido Bolchevique e tornar mais visível essa influência nos Sovietes, começa a preparação da insurreição popular armada.
 
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