Conversa a propósito dos 150 anos do Manifesto

Os 150 anos do MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA

Conversa com Francisco Melo e José Barata-Moura


Cumprem-se este ano 150 anos sobre a escrita e a publicação de um texto fundamental para o movimento operário mundial - o Manifesto do Partido Comunista, da autoria conjunta de Karl Marx e Friederich Engels. Associando-se às comemorações deste aniversário, o nosso jornal promoveu uma conversa com os nossos camaradas Francisco Melo e José Barata-Moura, que dirigiram a edição recentemente lançada pelas Edições Avante! e que nos falam não apenas da história e da importância que o documento teve para a clarificação teórica e para a organização da luta do proletariado ao longo de século e meio mas também da sua actualidade nos dias de hoje.

Uma nova edição e a sua história

FRANCISCO MELO — Em 1975 publicaram as Edições «Avante!», sob a direcção científica de Magalhães-Vilhena, uma edição do Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels.

Como se dizia no texto inicial «Ao Leitor», tratava-se da primeira tradução «em língua portuguesa, legal ou não, em Portugal ou no Brasil (pelo menos que saibamos), estabelecida directamente sobre os originais, em alemão e inglês».

Desta tradução, acompanhada de «Notas Complementares» de Magalhães-Vilhena que deverão ser consultadas para um estudo aprofundado do Manifesto, foi publicada, em 1982, uma versão revista, integrada no tomo I das Obras Escolhidas de Marx-Engels.

Encontrando-se esgotadas aquelas duas edições, recentemente, uma versão da última, novamente revista, foi publicada, em separado, pelas Edições «Avante!».

Porquê esta sucessão de revisões? No já mencionado texto «Ao Leitor» dizia Magalhães Vilhena sobre a tradução editada sob a sua orientação científica: «[...] porque temos consciência da dificuldade imensa da tarefa, sabemos que por hoje não se pode tratar aqui senão de uma tentativa - e o que é mais: de uma primeira tentativa, para a qual nenhuns trabalhos preparatórios, mesmo parciais, abriram de algum modo o caminho. Só do esforço colectivo de elaboração, paciente e longo, resultará, num dia que é de desejar próximo, a edição portuguesa que o imortal Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, exige dos investigadores marxistas de expressão portuguesa». As sucessivas traduções revistas publicadas pelas Edições Avante! têm pretendido ser passos no caminho da concretização da orientação e da exigência apontadas por Magalhães-Vilhena.

JOSÉ BARATA-MOURA — O Manifesto do Partido Comunista foi publicado pela primeira vez em Londres, na segunda metade de 1848, sem indicação de autoria. O manuscrito original não foi até hoje encontrado, e apenas nos restam duas peças de rascunho. A redacção é de Marx. E há até uma indicação quase anedótica - é que, em 24 de Janeiro de 1848, a direcção central da Liga dos Comunistas avisa que, se Marx não enviar o texto para Londres até 1 de Fevereiro, «ulteriores medidas serão contra ele tomadas», e que deverá devolver a documentação que foi posta à sua disposição para a redacção.

Em 1850, Marx dá também a entender que é o autor do Manifesto, numa declaração sobre a interpretação de posições suas que faz uma revista de Frankfurt.

No entanto, do ponto de vista substancial, o Manifesto é uma obra comum, de Marx e de Engels. No 2º Congresso da Liga dos Comunistas, em finais de 1847, Marx e Engels tinham sido encarregues de formular os novos princípios fundamentais do movimento. E em 1850, numa nota a uma publicação parcial do Manifesto, Marx e Engels declaram-se autores do texto.

É importante ter em conta que, no quadro da colaboração conjunta de Marx e de Engels, a partir de 1844, e no quadro também da reorganização e relançamento da Liga dos Comunistas, em 1847, Engels havia composto já uns Princípios do Comunismo, em forma de perguntas e respostas. E de facto muita da matéria que aparece no Manifesto está também presente em textos anteriores e em intervenções, quer de Marx, quer de Engels.

Outro dado a ter também em conta é que o formato do Manifesto, e o próprio título, são sugeridos por Engels numa carta a Marx, de 23/24 de Novembro de 1847.


Significado e necessidade do Manifesto

FRANCISCO MELO — Na primeira página do Manifesto pode ler-se: «Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objectivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido.» Parece-me, pois, que tinha razão Labriola quando, em 1895, dizia: «De aqui [ou seja, do Manifesto] começa o socialismo estritamente moderno.» E acrescentava: «Aqui está a linha de delimitação de tudo o resto.»

Na verdade, ao dotar a classe operária de um programa próprio, Marx e Engels terminavam o processo de formação da primeira organização revolucionária internacionalista do proletariado. É isto que marca uma viragem decisiva na história do movimento operário e terá nele uma influência sem precedentes porque proclamava pela primeira vez a tarefa revolucionária da classe operária: pôr fim ao modo de produção capitalista, acabar com a exploração do homem pelo homem, constituir uma sociedade sem classes, uma sociedade verdadeiramente humana. E esta tarefa não aparecia como a expressão do desejo de realização de qualquer secular sonho dos homens, mas (e aqui está o novo, a tal «linha de demarcação»), como resultado do conhecimento das leis e tendências do desenvolvimento social.

O Manifesto veio, pois, fornecer aos proletários organizados «em partido político» uma teoria de vanguarda; por isso se diz que, com ele, o socialismo científico se funde com o movimento operário, conferindo-lhe um carácter verdadeiramente revolucionário. Fusão necessária, que Lénine exprimirá, no começo do século, na célebre frase do seu Que Fazer?: «Sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário.»


Intervir sobre a realidade

JOSÉ BARATA-MOURA — O Manifesto não é uma obra de gabinete, nem de intelectuais isolados que se alarmam com o curso dos acontecimentos e condoem pela sorte dos trabalhadores, congeminando propostas de salvação.

O Manifesto surge na base de uma realidade conflitual em desenvolvimento e de diferentes esforços de a compreender e sobre ela intervir. Surge de dentro de um movimento, o movimento operário e, em particular a Liga dos Comunistas, em busca de clarificação teórica e de reorganização operativa.

Do ponto de vista subjectivo, da mobilização de pensamento transformador e de forças sociais em condições de o realizar, o Manifesto representa um momento alto daquele propósito de congregar, como Marx tinha escrito numa carta a Arnold Ruge em 1843, «recrutas para o serviço da humanidade nova», fazendo convergir numa luta comum aquilo a que ele chama «a humanidade que sofre e que pensa» e «a humanidade que pensa e que é reprimida».

Nos Anais Franco-Alemães, de 1844, Marx falará do encontro crítico e revolucionador das «armas espirituais» da filosofia e das «armas materiais» do proletariado.

No entanto, a perspectiva porventura mais inovadora e fecunda do Manifesto reside no ensaio de inserir a dimensão política e revolucionária da luta social no processo que constitui a própria textura material da história que as colectividades humanas - não apenas no plano económico - vão modelando e transformando pelo seu trabalho.

É por isso que o comunismo não aparece como uma doutrina «ideal» que celebra as perfeições de um dever-ser inatingido, mas como uma apropriação teórica e prática de um movimento real em curso, do seio de cuja contraditoriedade efectiva se projectam possibilidades reais de reconfiguração revolucionante e com um cunho de classe da produção do viver num sentido alargada e concretamente emancipador.

Como no Manifesto se pode ler, «As proposições teóricas dos comunistas de modo nenhum repousam sobre ideias, sobre princípios, que foram inventados por este ou por aquele melhorador do mundo. Elas são apenas expressões gerais das relações efectivas de uma luta de classes existente, de um movimento histórico que se passa ante os nossos olhos.»

A crítica e a transformação revolucionária comunistas enraizam, intervêm e realizam praticamente um trabalho interno à história, de configuração humana e humanizante das suas realidades. É de dentro do movimento real, e como instrumento para a sua compreensão crítica e transformação revolucionária, incarnada na prática esclarecida dos agentes que estão em condições de organizadamente as levarem a cabo, que o Manifesto é pensado.


Uma tarefa histórica

FRANCISCO MELO
— Tem sido observado que no Manifesto se faz uma exaltação do papel histórico da burguesia. Mas também se pronuncia a sua sentença de morte: partindo da análise das leis do desenvolvimento social e, em primeiro lugar, da lei da correspondência necessária das relações de produção e das forças produtivas, Marx e Engels chegaram à conclusão da inevitabilidade do derrube da burguesia. Mas eles não tinham de modo nenhum uma concepção mecanicista do determinismo histórico. Na verdade, ao evidenciarem o que «se processava diante dos seus olhos» — «crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em questão, cada vez mais ameaçadoramente, a existência de toda a sociedade burguesa», a «epidemia da sobreprodução» em que a «sociedade se vê retransportada a um estado de momentânea barbárie» (que indignação não despertariam nalgumas boas almas de hoje estes horrores de há 150 anos?!), etc. —, Marx e Engels concluíam: «Mas a burguesia não forjou apenas as armas que lhe trazem a morte; também gerou os homens que manejarão essas armas — os operários modernos, os proletários.» Quer dizer, a história age através dos homens, no caso vertente a classe operária, cujo papel de «coveira» da burguesia emerge das suas condições de existência no regime capitalista: ela é a mais explorada, a mais concentrada, a melhor organizada e a mais disciplinada — e, por isso, a mais revolucionária.


Um texto inovador

JOSÉ BARATA-MOURA — Do ponto de vista formal, este texto de 1848 é também inovador. Não é um catecismo - à maneira do que era então corrente nas elaborações teóricas do movimento operário para endoutrinamento de neófitos ávidos de decorar as respostas identificadoras de um credo. É um Manifesto, algo que se mostra, que se manifesta, que se dá a conhecer e também faz conhecer realidades que irreflectidamente se sofrem, mas que é possível transformar também, actuando sobre aquilo que as estrutura.

Contrariando a ideia de que o comunismo é um espectro de contornos misteriosos e sombrios - que todas as potências reinantes anatematizam e combatem, e que os próprios adeptos até difundiam e faziam avançar pelos canais clandestinos das sociedades secretas -, Marx e Engels entendem que, em articulação com o facto de ele ser reconhecido já, e apesar de tudo, como um poder, é chegado o momento de o comunismo vir à luz do dia.

No contexto da altura, esta foi, sem dúvida, uma orientação política fundamental.

Para vir eficazmente à luz do dia, para se tornar manifesto, o comunismo apresentava já uma base potencial de ancoragem social - o que não pode ser desligado do avanço das próprias relações capitalistas - e estava também em condições de apresentar ideias, pensamentos, linhas políticas de orientação para a luta de transformação de realidades que deixam de ser apenas sofridas para passarem a começar a ser conhecidas na sua génese, desenvolvimento e contraditoriedade.

Este é o significado teórico fundamental do Manifesto - decisivo na conjuntura, determinante de muitos outros aprofundamentos que não deixaram de verificar-se, inspirador para as tarefas que continuam a concitar a inteligência, o querer e o trabalho dos comunistas.


As posições perante o Manifesto

FRANCISCO MELO — O carácter revolucionário do Manifesto não poderia deixar de provocar «delimitações» de campos na própria avaliação que dele se fez e faz.

Alguns exemplos: em escrito recente, lembrava o Barata-Moura as palavras de Jean Jaurès, na linha do que poderíamos caracterizar como um revolucionarismo evolucionista, segundo as quais o Manifestoapenas conteria «pensamentos antigos de onde a verdade fugiu». Outra era a apreciação de Lénine, expressa poucos anos antes: «Este pequeno livrinho vale por tomos inteiros: ele inspira e anima até hoje todo o proletariado organizado e combatente do mundo civilizado.»

Isto nos finais do século passado-princípios do actual. Um século depois, estas posições manter-se-ão? Certamente que sim. O Manifesto será, por exemplo, rejeitado por aqueles que, perfilhando uma «estratégia evolucionista e possibilista, tendem a identificar conquistas democráticas e sociais possíveis sob o capitalismo com a própria noção de superação do capitalismo» (extraio esta caracterização da Resolução Política do nosso XV Congresso). Pelo contrário, considerá-lo-ão como fazendo parte do seu património teórico-político aqueles que, constatando que «o desenvolvimento do capitalismo neste findar de século está a conduzir a manifestas regressões de carácter social, democrático e cultural que confrontam a humanidade com o perigo de graves retrocessos civilizacionais», entendem que «a alternativa necessária é a superação revolucionária do capitalismo» (ibid.).


A perspectiva de luta

JOSÉ BARATA-MOURA — Se a minha leitura é correcta, o Manifesto não é, nem um texto moralista, nem um texto utópico. Enraiza na compreensão e no trabalho da história um projecto económico, político, social e cultural revolucionário de transformação, atravessado por uma inequívoca perspectiva de classe. É pelos interesses globais do proletariado que os comunistas se batem e «o movimento proletário é o movimento autónomo da imensa maioria no interesse da imensa maioria».

O capitalismo não é a encarnação do Mal, mas um modo de produzir e reproduzir o viver que se foi instalando nas sociedades humanas ao longo de toda uma génese e maturação, no decorrer da qual importantes desenvolvimentos, ao nível das forças produtivas, da organização política, dos valores e da cultura foram tendo lugar.

Todavia, num quadro de mundialização crescente, modelado à medida dos seus interesses e à sua imagem, em que (como já ao tempo de Marx era perceptível), por detrás de muitas «ilusões políticas e religiosas», aquilo que se implanta é «a exploração aberta, desavergonhada e seca». Deixada à solta, entregue a si mesma, a lógica do capital não pode deixar de produzir, alargadamente, efeitos desta natureza.

Por sua vez, o comunismo também não é a descrição utópica de um paraíso a implantar; o comunismo é a expressão contemporânea daquela luta de classes que atravessa e conforma a história de que há memória escrita (e de dentro da qual a própria burguesia moderna surgiu e se afirmou), e a história que continua a pôr em confronto os possuidores dos «meios sociais de produção» e os «trabalhadores assalariados».

Num contexto de exploração galopante e de crises recorrentes (de que as comerciais e de sobreprodução constituem apenas uma ilustração histórica), um revolucionamento real da estrutura em que assenta o viver social e as reconfigurações subsequentes (não apernas no domínio da economia) que terão de empreender-se, colocam como questão central incontornável a abolição da propriedade burguesa sobre os meios sociais de produção.

É essa a grande perspectiva de luta que o Manifesto nos lança, não sem, do mesmo passo, convocar a nossa atenção para a necessidade de implementar um poder político democrático, isto é, efectivamente ao serviço da maioria trabalhadora, de promover a instrução pública gratuita em bases universais, de cuidar da produção e da batalha das ideias, de dignificar a condição feminina, etc., etc.

Para o combate por estes objectivos (inscritos nas possibilidades que a própria realidade materialmente prepara e projecta) e para a consecução destes objectivos é indispensável uma ampla, esclarecida e organizada mobilização social. A base para essa mobilização social encontra-se dada pelas próprias condições dos «desprovidos de propriedade», mas todo um esforço teórico e prático de esclarecimento, congregação e movimentação tem que ser empreendido. É nesse movimento que o labor dos comunistas se inscreve, pelo seu empenho prático decidido e pela sua perspectivação teórica, num quadro nacional e internacionalista, no sentido de potenciar a dimensão política (e não apenas economicista) da luta de classes em curso.


O internacionalismo e a «defesa da pátria»

FRANCISCO MELO — Como já referi, no Manifesto Marx e Engels fundamentam a ideia do papel dirigente da classe operária na luta por um mundo sem explorados nem exploradores. O apelo internacionalista «Proletários de todos os países, uni-vos!» com que encerra o Manifesto é o corolário não apenas da igualdade internacional da condição de explorados dos proletários de todos os países, mas também da identidade internacional da tarefa de que a história os incumbe. Quererá isto dizer que devem fazer tábua rasa da luta no plano nacional? A afirmação «os proletários não têm pátria» poderá induzir uma interpretação nesse sentido. A frase que imediatamente se lhe segue mostra que se trata apenas de uma constatação fáctica:«Não se lhes pode tirar o que não têm.» E a continuação do texto (já Lénine tinha chamado a atenção para isto em 1916 em carta a Inessa Armand) é explícita para não permitir fazer de Marx e Engels advogados de um qualquer niilismo nacional: «Na medida em que o proletariado tem primeiro de conquistar para si a dominação política, de se elevar a classe nacional, de se constituir a si próprio como nação, ele próprio é ainda nacional, mas de modo nenhum no sentido da burguesia.» (Note-se esta ressalva: Marx e Engels tinham vindo a denunciar a «defesa da pátria» por parte da burguesia como uma capa hipócrita para esconder a sua opressão de outros povos.) Aliás, já páginas antes tinham afirmado sem equívocos: «O proletariado de cada um dos países tem naturalmente de começar por resolver os problemas com a sua própria burguesia.»

Para Marx e Engels não há, pois, qualquer contradição entre as tarefas nacionais e internacionais da classe operária. É com inteira fidelidade ao pensamento de Marx e Engels que ao constatar — e novamente utilizarei a Resolução Política do XV Congresso — que «os condicionalismos externos pesam cada vez mais na ordem interna dos Estados», o nosso Partido afirma: «Tal realidade não torna "caduca" a importância do espaço nacional como terreno incontornável da luta de classes [...]. A defesa da soberania nacional, conjugada com a luta por relações de cooperação internacional livres das imposições das grandes potências, ganha mesmo maior importância. Simultaneamente, a cooperação e a solidariedade internacionalista, a acção comum ou convergente dos comunistas, dos progressistas, dos trabalhadores e dos povos, tornam-se imprescindíveis para a luta de todos e de cada um, para o avanço do processo libertador no plano mundial.»


Os comunistas e as alianças

JOSÉ BARATA-MOURA — O Manifesto contém uma análise crítica pormenorizada das diferentes correntes que ao tempo se reclamavam também de um ideário socialista ou comunista. O objectivo não era sectário nem paroquial. Não se tratava de identificar e numerar os eleitos, os esclarecidos, os bons. Tratava-se, sim, de mostrar a necessidade de não se perder de vista a questão essencial (a do derrubamento da propriedade burguesa) e de, a partir de uma convergência de fundo nesse propósito (que corresponde aos interesses dos assalariados no seu conjunto), promover a «ligação e o entendimento dos partidos democráticos de todos os países».

FRANCISCO MELO — No capítulo II do Manifesto, Marx e Engels expuseram lapidarmente a relação dos comunistas com o movimento operário e o movimento revolucionário em geral. Um primeiro aspecto: os comunistas «não têm nenhuns interesses separados dos interesses do proletariado todo». Daqui decorre que a acção dos comunistas não tem a sua justificação em si mesma, mas em servir o proletariado; no entanto, nessa acção em defesa dos interesses do proletariado cabe-lhes um papel de vanguarda. Nas palavras do Manifesto:«Os comunistas são, pois, na prática, o sector mais decidido, sempre impulsionador, dos partidos operários de todos os países; na teoria, eles têm, sobre a restante massa do proletariado, a vantagem da inteligência das condições, do curso e dos resultados gerais do movimento proletário.»

Ser vanguarda requer assim condições práticas e teóricas. É nesse sentido que, nos Estatutos do nosso Partido, ao afirmar-se que «o papel de vanguarda do Partido decorre da sua natureza de classe» se acrescenta que ele decorre também «do acerto das suas análises e da sua orientação política, do projecto de uma nova sociedade, da coerência entre os princípios e a prática e da capacidade de organizar e dirigir a luta popular em ligação permanente, estreita e indissolúvel com as massas, mobilizando-as e ganhando o seu apoio.»

Um segundo aspecto: gostaria de chamar a atenção para o que, em perfeita consonância com as concepções acima referidas, Marx e Engels dizem no capítulo IV do Manifesto:«por toda a parte os comunistas apoiam todo o movimento revolucionário contra as situações sociais e políticas existentes» e lutando «para alcançar os fins e interesses imediatos da classe operária», no entanto, os comunistas «no movimento presente representam simultaneamente o futuro do movimento». Estas duas asserções excluem qualquer forma de oportunismo - quer o que sacrifica os interesses imediatos ao objectivo final, quer o que sobrepõe o objectivo final às reivindicações imediatas - e estruturam a política de alianças dos comunistas. Seja-me permitido citar de novo a Resolução Política do XV Congresso: nela se diz que o Partido, nas suas alianças, «tendo em conta as diversas condições concretas históricas e objectivos imediatos, não abdica da individualidade e identidade próprias, nem sacrifica princípios centrais da sua natureza, ou o seu objectivo supremo de luta por uma sociedade socialista».


Ontem como hoje

JOSÉ BARATA-MOURA — A grande actualidade do Manifesto é, por um lado, a de que ele nos fala de uma realidade que, nos seus aspectos estruturais - e apesar e através de todas as modificações que sofreu e vem sofrendo -, ainda persiste; e, por outro lado, a actualidade do Manifesto reside em que ele tem de ser actuado: não se trata de recitar, de reproduzir, de aplicar mecânica ou automaticamente o muito que nele é dito; trata-se de, tendo em conta os caminhos inovadores que ele abre, tornar manifesto, no concreto dos nossos dias, as necessidades de compreensão, de críticas e de revolucionamento de que ele se alimenta e que ele projecta.

É pois um problema, um desafio e uma tarefa que, pelo menos aos comunistas de hoje, fica entregue.

Penso que Antonio Labriola, nos finais do século passado, resumiu bem a utilidade e a função do Manifesto, quando o caracterizou como «um instrumento de orientação que é simultaneamente uma arma de combate».

Escusado será lembrar que os instrumentos e as armas têm que ser «polidas», isto é, há que cuidar da sua manutenção, e que, por outro lado, são tal - instrumentos e armas - quando convenientemente manejados e utilizados.

FRANCISCO MELO — O capítulo III do Manifesto costuma ser silenciado pelos ideólogos burgueses. E não sem razões o fazem.

Não ouvimos nós dizer que hoje apenas se trata de saber como «gerir» o capitalismo? Ora, não tinham Marx e Engels estigmatizado já no Manifesto as teorias que procuravam «remediar os males sociais para assegurar a existência da sociedade burguesa»?

Não ouvimos nós dizer que estamos no «fim da história» visto que «a forma presente de organização social e política é completamente satisfatória para os seres humanos»? Ora, não tinham Marx e Engels posto a nu já no Manifesto o embuste da «burguesia, naturalmente, representar-se o mundo em que domina como o melhor dos mundos»?

E quando uns propõem uma «actualização do ideal social-democrata» ou «um relançamento do socialismo democrático» e outros apregoam uma espécie de Estado-Providência renovado «reduzindo as desigualdades, moderando os abusos, dando um contributo decisivo para uma solução moralmente aceitável dos principais problemas do mundo de hoje», como não nos lembrarmos imediatamente das palavras de Marx e Engels no Manifesto denunciando as tentativas de «tirar à classe operária o gosto por todos os movimentos revolucionários» pregando «melhoramentos administrativos [...] que nada alterem na relação de capital e trabalho assalariado, mas que no melhor dos casos reduzam à burguesia os custos da sua dominação e lhe simplifiquem o orçamento de Estado»?

E quando os ideólogos da burguesia de hoje exaltam todos as virtudes da «economia de mercado» e da «livre concorrência» não estão a procurar convencer o proletariado a «que fique na sociedade actual» desfazendo-se «das odiosas representações que faz dela», como Marx e Engels no Manifesto acusavam de fazer os ideólogos da burguesia do seu tempo?

Mesmo aqueles que se quedam na indignação perante os «horrores» do capitalismo actual não merecem a recriminação de Marx e Engels no Manifesto de que «só do ponto de vista da classe mais sofredora o proletariado existe para eles»?

Para terminar: tal como há 150 anos, também hoje «o socialismo da burguesia consiste precisamente na afirmação de que os burgueses são burgueses - no interesse da classe trabalhadora»!


«Avante!» Nº 1263 - 12.Fevereiro.98

Cronologia da II Guerra Mundial

Cronologia da II Guerra Mundial 

1919 - Assinatura do Tratado de Versalhes (Junho).
1920 - Fundação do Partido Nacional-Socialista (nazi) alemão (Abril).
1929 - Início da Grande Depressão (Outubro).
1931 - Invasão da Manchúria pelo Japão (Setembro).
1933 - Nomeação de Hitler chanceler do Reich alemão (Janeiro).
1933 - Incêndio do Reichstag, início da repressão massiva anticomunista (Fevereiro).
1935 - Invasão da Etiópia pela Itália (Outubro).
1936 - Início da Guerra Civil de Espanha (1936/39) (Julho).
1936 - Pacto Anti-Komintern entre o Japão e a Alemanha (Novembro).
1937 - Invasão da China pelo Japão (Junho).
1938 - Anexação da Áustria pela Alemanha (Março).
1938 - Pacto de Munique (Alemanha, Itália, Inglaterra e França) anexação dos Sudetas pela Alemanha (Setembro).
1939 - Ocupação da Boémia e Morávia pela Alemanha (Março).
1939 - Guerra Secreta no Extremo Oriente. Ataque japonês à Mongólia (Maio a Agosto).
1939 - Derrota japonesa no Extremo Oriente soviético (batalha de Chalka-gol) face à URSS (Agosto).
1939 - Tratado de Não Agressão entre a URSS e a Alemanha (Agosto).
1939 - Invasão da Polónia (Alemanha), início da 2.ª Guerra Mundial (1 de Setembro).
1939 - Declaração de neutralidade dos Estados Unidos.
1940 - Invasão e ocupação da Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França pela Alemanha (Abril-Junho).
1940 - Apelo do PCF ao governo para distribuição de armas ao povo para a defesa de Paris (Junho).
1940 - Capitulação da França (Junho).
1940 - Apelo de De Gaulle à resistência ao ocupante nazi (Junho).
1940 - Entrada da Lituânia, Letónia e Estónia na URSS (Agosto).
1940 - Início da batalha aérea de Inglaterra (Agosto).
1940 - Entrada das tropas alemãs na Roménia (Outubro).
1940 - Invasão do Vietname pelo Japão. Insurreição popular no Vietname.
1940 - Manifestação anti-nazi em Paris (Dezembro).
1940 - Aprovação do «Plano Barbarrossa" por Hitler (Dezembro).
1941 - Manifestação anti-nazi na Holanda (Fevereiro).
1941 - Ocupação da Grécia e da Jugoslávia pela Alemanha (Abril).
1941 - Início da resistência popular na Jugoslávia liderada pelo PC (Abril).
1941 - Pacto de Não Agressão entre a URSS e o Japão (Abril).
1941 - Assinatura de acordo militar entre a França de Petaín e a Alemanha (Maio).
1941 - Ataque da Alemanha à URSS (Junho).
1941 - Início do movimento de resistência na Bulgária (Junho).
1941 - PCUS decide organizar a resistência armada nos territórios sob ocupação (Julho).
1941 - Manifestação antifascista em Budapeste (Outubro).
1941 - Greve operária em Praga (Outubro).
1941 - Batalha de Leninegrado (prolonga-se até final de 1943) (Dezembro).
1941 -Derrota nazi na Batalha de Moscovo (Dezembro).
1941 - Ataque a Pearl Harbour pelo Japão, entrada dos EUA na guerra (Dezembro).
1942 - Greve geral no Luxemburgo (Agosto).
1942 - Formação do Conselho Nacional Antifascista na Jugoslávia e constituição do Exército Popular de Libertação (Novembro).
1942 - Batalha de Stalinegrado. Contra-ofensiva soviética (Setembro a Fevereiro de 1943).
1943 - Manifestação em Atenas contra o trabalho obrigatório imposto pelos nazis (Fevereiro).
1943 - Início da insurreição no «ghetto" de Varsóvia (Abril).
1943 - Desembarque anglo-americano na Sicília (Julho).
1943 - Batalha de Kursk (Julho-Agosto).
1943 - Formação de Comités Populares de Libertação na Alemanha, Itália, Dinamarca e Polónia (Julho-Setembro).
1943 - Conferência de Teerão (URSS, EUA e Inglaterra) (28 Nov.-1 Dezembro).
1944 - Greve geral antifascista na Itália do Norte (Março).
1944 - Desembarque Aliado na Normandia - Abertura da Segunda Frente (Junho).
1944 - Manifestações e greves antifascistas na Dinamarca (Junho).
1944 - Insurreição de Paris (Agosto).
1944 - Insurreição na Eslováquia e sua libertação pelo Exército Vermelho (Agosto).
1944 - Insurreição em Sófia (Setembro).
1944 - Libertação da Roménia e Bulgária pelo Exército Vermelho.
1945 - Libertação de Varsóvia pelo Exército Vermelho (Janeiro-Fevereiro).
1945 - Conferência de Yalta (URSS, EUA e Inglaterra) (Fevereiro).
1945 - Libertação de Budapeste pelo Exército Vermelho (Fevereiro).
1945 - Apelo do PCI à insurreição geral (Abril).
1945 - Revolta dos prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald (Abril).
1945 - Libertação de Viena pelo Exército Vermelho (Abril).
1945 - Tomada do Reichstag (Berlim) pelo Exército Vermelho (Abril).
1945 - Assinatura da Acta de Capitulação incondicional da Alemanha (8-9 Maio).
1945 - Insurreição popular e libertação de Praga pelo Exército Vermelho (Maio).
1945 - Conferência de Potsdam (URSS, EUA e Inglaterra) (Junho).
1945 - Lançamento de bombas atómicas sobre o Japão pelos EUA (Agosto).
1945 - Declaração de guerra ao Japão pela URSS (Agosto).
1945 - Assinatura da acta de capitulação incondicional do Japão (Setembro).

"O Militante" - N.º 276 Maio/Junho 2005

60 anos hiroshima

Sessenta anos de um crime monstruoso

AUTOR
Colaborador da Secção Internacional



Ao longo de 2005 assinalou-se o 60.º aniversário da vários acontecimentos importantes ligados à derrota do nazi-fascismo. Numerosas foram as cerimónias oficiais onde os dirigentes políticos das potências capitalistas europeias e norte-americana procuraram reescrever a História daquele conflito. Apagou-se o papel decisivo e central que desempenharam na derrota do nazi-fascismo a União Soviética, o seu povo e o Exército Vermelho. Deixaram-se no esquecimento as decisivas batalhas de Estalinegrado, Moscovo, Leninegrado, Kursk, Kiev, Sebastopol e tantas outras. Silenciaram-se as resistências populares armadas em numerosos países e o papel ímpar que os comunistas desempenharam na derrota do nazi-fascismo. E foi escassa a atenção oficial dedicada ao 60º aniversário doutra data importante e funesta na História da Humanidade: o início da era atómica, com o lançamento, por parte do imperialismo norte-americano, das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaqui.
O embaraço na "comemoração" das datas de 6 e 9 de Agosto de 1945 é evidente. Estamos perante um enorme crime. O historiador norte-americano Ronald Takaki estima em 300 mil o número de mortos resultante dos ataques nucleares dos EUA (1). Este número terrível não transporta todo o horror do pesadelo nuclear, que é descrito duma forma muito sóbria, mas muito impressionante no livro Hiroshima (2) do jornalista norte-americano John Hersey. Há dois anos, o Presidente da Câmara de Hiroshima afirmava: "o efeito conjunto do calor, da explosão e da radiação mataram instantaneamente cem mil seres humanos e reduziram Hiroshima a um monte de destroços - uma experiência que foi descrita pelos sobreviventes como "o fim do mundo". As condições na cidade logo após a explosão são impossíveis de transmitir por palavras. As pessoas tornaram-se fantasmas, a sua pele queimada ou a cair dos seus corpos, com a carne e até os ossos expostos. Mães que procuravam deseperadamente acudir aos seus bebés queimados. Bebés que se agarravam desesperadamente às suas mães mortas ou moribundas. Os que conseguiram sobreviver tinham perdido tudo, até a esperança. Muitos dos sobreviventes invejavam sinceramente os que tinham morrido. Aliás, sabemos dos relatos de testemunhas que muitas vítimas se suicidaram logo que ganharam consciência da sua situação" (3).
A justificação oficial para a utilização da arma nuclear contra os civis de Hiroshima e Nagasaqui sempre foi a de que a alternativa seria uma invasão terrestre do Japão que conduziria à morte de centenas de milhar de soldados norte-americanos (4). A tese é que é aceitável matar centenas de milhar de civis japoneses para salvar "centenas de milhar" de soldados norte-americanos. Mas a própria alternativa é uma falsa questão. O Japão era, em Agosto de 1945, um país à beira do colapso. Os seus aliados nazi-fascistas europeus haviam sido derrotados e a guerra na Europa terminara há três meses. As principais cidades japonesas estavam a ser durissimamente castigadas pelos bombardeamentos anglo-americanos. Apenas um mês após o blitz anglo-americano sobre a cidade alemã de Dresden, que matou muitas dezenas de milhar de pessoas numa noite, Tóquio sofreu uma sorte análoga: na noite de 9 para 10 de Março morreram cerca de 100 000 pessoas no gigantesco incêndio provocado pelos bombardeamentos (5). As tropas japonesas recuavam em todas as frentes. E uma nova frente estava prestes a abrir-se. Na Cimeira de Ialta, em Fevereiro de 1945, a União Soviética comprometera-se a entrar em guerra contra o Japão três meses após o fim da guerra na Europa. Esse calendário foi cumprido escrupulosamente, tendo a URSS declarado guerra ao Japão no dia 9 de Agosto. Desde Janeiro de 1945 que o poder em Tóquio considerava a hipótese da rendição e havia já contactos de emissários japoneses com os aliados para saber quais as eventuais condições (6).
Nem os principais comandantes militares dos EUA consideravam necessária a utilização da nova arma atómica. O General Eisenhower, que viria a ser Presidente dos EUA, confidenciou em Potsdam que "tinha sérias reservas" e considerava "completamente desnecessária" a utilização do nuclear, uma vez que o Japão "já estava derrotado" (7). O General MacArthur, comandante supremo das tropas aliadas no Pacífico e mais tarde comandante das forças americanas na guerra contra a Coreia, partilhava dessa opinião, considerando o uso da bomba "totalmente desnecessária do ponto de vista militar". Mais longe ia o Almirante Leahy, Chefe de Estado Maior, que considerava nem sequer ser necessária qualquer invasão do território japonês para assegurar a sua derrota (8).
As razões de fundo para a decisão política de lançar as bombas nucleares sobre duas cidades japonesas não tiveram tanto a ver com a II Guerra Mundial, quanto com a nova ordem mundial que iria emergir no pós-guerra. Os dirigentes das principais potências capitalistas mundiais estavam preocupados com os avanços do processo de libertação mundial que inevitavelmente iriam surgir no final desta segunda grande catástrofe em que o capitalismo havia lançado a Humanidade, no curto espaço de 40 anos. Estavam preocupados com o enorme prestígio e autoridade ganhos pela União Soviética pelo seu papel decisivo na derrota do nazi-fascismo. Estavam preocupados com a participação de amplas massas populares na resistência armada antifascista a nível mundial e com a grande influência que os comunistas haviam adquirido em numerosos países pela sua contribuição decisiva para essa resistência. Temiam que a entrada em cena dessas vastas massas, desejosas de justiça social e nacional, e revoltadas com as suas classes dirigentes e com o seu papel de apoio, conivência ou capitulação perante a mais bárbara forma de dominação gerada pelo capitalismo, pudesse levar a transformações sociais profundas, de natureza anticapitalista. O objectivo de conter o avanço da libertação dos trabalhadores e dos povos do mundo tornava-se assim central nas preocupações dos dirigentes das principais potências capitalistas.
Winston Churchill confessa de forma dissimulada esta preocupação, ao discutir as razões para a utilização da recém-testada bomba atómica na sua famosa e extensa história da II Guerra Mundial. Logo após referir o argumento de salvar as vidas de soldados anglo-americanos, acrescenta: "E além disso, não precisaríamos dos Russos. O fim da guerra japonesa já não dependia da entrada em massa dos seus exércitos [...]. Não tínhamos necessidade de lhes pedir favores. [...] escrevi ao Sr. Eden: "é muito claro que os Estados Unidos não desejam neste momento a participação da Rússia na guerra contra o Japão"" (9). Evidentemente, havia preocupações maiores do que "salvar a vida dos nossos rapazes"... Mais claro é o director do Projecto Manhattan (o projecto de desenvolvimento das bombas atómicas), General Groves, que afirmou num testemunho perante a Comissão para a Energia Atómica dos EUA: "Desde cerca de duas semanas após assumir o cargo deste Projecto, nunca tive qualquer ilusão de que a Rússia era o nosso inimigo, e o Projecto foi conduzido nessa base" (10). E assim, os civis japoneses de Hiroshima e Nagasaqui foram sacrificados pelos dirigentes do imperialismo norte-americano, para mostrar ao mundo que possuíam uma nova e terrível arma e que estavam dispostos a utilizá-la.
Nas suas memórias, Churchill descreve a criação da bomba atómica como "um acontecimento tremendo na história humana". Mas, surpreendentemente, afirma que nos círculos dirigentes anglo-americanos "nunca houve um momento de discussão sobre se deveria ou não usar-se a bomba atómica. [...] Houve um acordo unânime, automático, sem questionamentos, à volta da nossa mesa; nem nunca ouvi a mínima sugestão de que devêssemos proceder de outra forma" (11). Querendo mostrar a força das suas convicções, Churchill mostra apenas o lado profundamente criminoso dos círculos dirigentes do imperialismo. Natureza criminosa que continua bem patente na actualidade.
Tal como nos nossos dias, este crime maior do imperialismo norte-americano foi rodeado de inúmeras mentiras. O Presidente Truman, anunciando o ataque a Hiroshima no seu comunicado à imprensa de 6 de Agosto de 1945 afirmou que Hiroshima era uma "base do Exército japonês", nunca referindo tratar-se de uma cidade com 350 mil habitantes (12). Três dias depois, num discurso pela rádio, Truman afirmou: "o mundo assinalará que a primeira bomba atómica foi lançada sobre Hiroshima, uma base militar. Isto deveu-se ao nosso desejo de evitar, na medida do possível, a morte de civis" (13). Durante anos negaram-se os efeitos da radioactividade libertada pelas bombas. Tal como hoje se negam os efeitos terríveis das armas contendo urânio empobrecido, usadas em larga escala no Iraque e nos Balcãs. O famoso jornalista australiano Wilfred Burchett, que foi o primeiro jornalista anglo-saxónico a entrar em Hiroshima (à revelia das tropas americanas) após o lançamento da bomba atómica, escreveu artigos no jornal Daily Express relatando os efeitos da radioactividade que tinha presenciado. Conta Burchett: "Eu descrevia a radiação e os seus efeitos, e isto era algo que era negado. Foi convocada uma conferência de imprensa especial para atacar o meu relato da radiação atómica. O homem que controlava a coisa era o número dois, após o General que controlava o Projecto Manhattan" (14).
Sessenta anos depois da barbárie atómica de Hiroshima e Nagasaqui, o mundo vive novos perigos. O imperialismo pensa não ter já entraves e lançou uma ofensiva global para impor a sua hegemonia planetária. Os bárbaros que governam em Washington, Londres, Tel Aviv e outras capitais arrogam-se o direito de utilizar todos os meios ao seu alcance. Multiplicam-se os sinais de que a utilização de armas nucleares é uma das opções consideradas. Os documentos oficiais norte-americanos, como o Nuclear Posture Review, encaram essa possibilidade, indicando até os nomes de seis países que podem vir a ser alvos nucleares: Irão, Coreia do Norte, Iraque (o documento é de 2002), Síria, China e Rússia (15). No início de Julho, o Senado dos EUA votou a favor do financiamento dos planos de desenvolvimento de novas armas nucleares (16).
Importa reter as recentes palavras dum antigo falcão, o ex-Ministro da Defesa dos EUA no tempo da guerra do Vietname, Robert McNamara, que ao discursar na Conferência da ONU sobre o Tratado de Não-Proliferação, afirmou: "Se tivesse que caracterizar, numa única frase, as políticas nucleares dos EUA e da NATO, diria que são imorais, ilegais, desnecessárias do ponto de vista militar e muito, muito perigosas". Está nas mãos dos povos impedir novos pesadelos nucleares.

Notas
  • (1) Hiroshima: why America dropped the atomic bomb, R. Takakai, Little, Brown and Company, 1995, p. 47.
  • (2) Editado em Portugal pela Antígona, 1997.
  • (3) http://www.city.hiroshima.jp/shimin/heiwa/unitar-speech.html
  • (4) Winston Churchill, na sua história da II Guerra Mundial chega a falar num milhão de mortos nas fileiras dos EUA, e meio milhão de britânicos (The Second World War, Vol. VI, p. 552, Penguin, 1985).
  • (5) 1939-1945, uma guerra desconhecida, de Paul-Marie de la Gorce, Editorial Caminho, 2004, p. 488.
  • (6) Idem, p. 487- 490.
  • (7) Para as fontes, veja-se o livro de R. Takaki já citado, p. 30.
  • (8) Idem, p. 31.
  • (9) The Second World War, Winston Churchill, Vol. VI, p. 553, Penguin, 1985.
  • (10) Hiroshima: why America dropped the atomic bomb, R. Takakai, Little, Brown and Company, 1995, p.7.
  • (11) The Second World War, Winston Churchill, Vol. VI, p. 553, Penguin, 1985.
  • (12) O texto integral está disponível em http://www.cddc.vt.edu/host/atomic/hiroshim/truman1.txt
  • (13) Embora o discurso seja do domínio público, a sua reprodução na Internet foi bizarramente sujeita a direitos de autor, encontrando-se o trecho aqui transcrito disponível em http://www.dannen.com/decision/hst-ag09.html.
  • (14) Entrevista concedida a John Pilger e Michael Coren, no seu livro The Outsiders, Quartet Books, 1985.
  • (15) Excertos desse documento encontram-se em http://www.globalsecurity.org/wmd/library/policy/dod/npr.htm.
  • (16) Artigo do jornalista H. Josef Hebert, da Associated Press, 2.7.05.
  • (17) Reuters, 24.5.05.


"O Militante" - N.º 278 Setembro/ Outubro 2005

60 anos da Vitória sobre o nazi-fascismo

60 anos da Vitória sobre o nazi-fascismo
Intervenção do PCP na Conferência de Praga de Partidos Comunistas e Operários


Agradecendo ao Partido Comunistas da Boémia e Morávia o seu convite e valorizando a sua iniciativa, quero, em nome do Partido Comunista Português, começar por prestar homenagem aos comunistas checos que tombaram pelos seus ideais e pela sua pátria, que organizaram a resistência contra o ocupante nazi, que tomaram o partido dos trabalhadores e do povo e estiveram na primeira linha da insurreição de Praga.

Hoje, quando, explorando as trágicas derrotas do socialismo, se procura denegrir os comunistas e os seus ideais, é importante lembrar, aqui em Praga, o papel determinante dos comunistas na libertação do seu país e na vitória sobre o nazi-fascismo.

Por isso os comunistas checos emergiram no pós-guerra ainda mais prestigiados e mais fortes. Por isso passaram - como na Revolução de Abril de 1974 nós, comunistas portugueses, também passámos - directamente da clandestinidade para o governo popular. Por isso estiveram em condições de, em 1948, impor às forças da burguesia e da reacção uma derrota histórica e lançar-se na construção de uma sociedade nova.

Consideramos esta Conferência de uma grande oportunidade e importância. Desde logo pelo seu carácter internacionalista. É uma contribuição real para a cooperação dos partidos comunistas e outras forças de esquerda. Cooperação que, nos nossos tempos de globalização capitalista, é mais necessária do que nunca.
Depois porque tem lugar em Praga, no centro desta Europa capitalista que deu ao mundo o fascismo e o nazismo e foi palco dos maiores morticínios e destruições que a humanidade conheceu. Esta Europa que queremos de paz, amizade e cooperação, mas que, com a destruição da URSS e as derrotas do socialismo, voltou a ser palco, nos Balcãs, de guerras de agressão destruidoras, onde as esperanças criadas com a Acta Final de Helsínquia estão a ser destruídas com a subversão da OCSE, e onde a NATO (hegemonizada, aliás, pelos EUA) e a União Europeia (transformada em bloco económico-político-militar imperialista) colocam de novo a necessidade imperiosa de mobilizar os nossos povos contra o militarismo e a guerra.

 Esta Conferência não pode deixar de constituir um apelo vibrante a que se não esqueçam as lições do passado e se unam todas as forças que seja possível unir para pôr fim à dinâmica de intervenção, agressão e guerra que o imperialismo abateu sobre o mundo.

Os trabalhadores e os povos precisam de trabalho e pão, precisam de mais saúde, mais educação e formação cultural e não de armas cada vez mais caras, mais sofisticadas e mais mortíferas. É por isso que a luta no plano social por melhores salários e condições de vida e contra o neoliberalismo está estreitamente associada à luta pelo desarmamento, pela solução política dos conflitos, pela paz, pela solidariedade activa para com os povos - do Iraque e Palestina, a Cuba ou à Venezuela - que são vítimas de agressões, ingerências e ameaças do imperialismo.

É por isso que pensamos que a ofensiva do imperialismo norte-americano para o domínio do mundo não se combate cedendo diante das suas exigências e aceitando a política de factos consumados como no Iraque e outros pontos do mundo. Nem desenvolvendo a corrida aos armamentos e praticando uma política intervencionista, como faz a Alemanha e outras grandes potências capitalistas da União Europeia ou no Extremo-Oriente, e uma vez mais, o Japão. Esse é o caminho do desastre. Aqui em Praga é particularmente oportuno recordar a chamada política de apaziguamento que sacrificou o povo checo em Munique e escancarou as portas à 2.ª Guerra Mundial.

Só a luta pelo desarmamento, pela destruição dos blocos militares, pela defesa da democracia e dos direitos sociais dos trabalhadores pode defender a paz.

A importância desta Conferência é também grande no plano da luta das ideias, repondo a verdade histórica e combatendo omissões, deformações e descaradas falsificações sobre as causas da 2.ª Guerra Mundial e as forças da "Vitória". Isto é tanto mais importante quanto a reacção e o imperialismo reescrevem a história à medida dos seus interesses de classe procurando justificar a violenta ofensiva em curso para impor uma "nova ordem" mundial contra os trabalhadores e contra os povos, hegemonizada pelos EUA.

É por isso necessário recordar nomeadamente:

o que o fascismo é a força de choque do grande capital e que as suas raízes mergulham fundo no próprio sistema de exploração e opressão do capitalismo;

o que enquanto a burguesia e os seus governos recuavam constantemente diante do fascismo (procurando lançá-los contra a URSS), capitulavam vergonhosamente e traíam os interesses nacionais, a classe operária e os trabalhadores, com os comunistas na vanguarda, apelavam à resistência, mobilizavam as massas para a luta, pegavam em armas, organizavam a acção clandestina e guerrilheira, imobilizavam grandes contingentes de tropas hitlerianas, libertavam grandes territórios da peste nazi-fascista;

o que foi a URSS, o povo soviético, os comunistas soviéticos e o Exército Vermelho, o grande artífice da "Vitória". Mais de 20 milhões de mortos ilustram, de modo inquestionável, o preço pago pelo povo soviético para libertar a sua pátria e o mundo do flagelo nazi-fascista. E a onda de confiança que heróicas batalhas, como as de Leninegrado e Stalinegrado, trouxeram aos povos dos países ocupados jamais será esquecida.

Em Portugal, onde o PCP lutava nas duras condições de clandestinidade, as vitórias do Exército Vermelho e a sua avançada imparável em direcção ao coração do III Reich constituíram um estímulo que jamais esqueceremos. A transformação do PCP, nos anos quarenta, num grande partido nacional é inseparável do prestígio alcançado pela URSS e o socialismo;
o que os comunistas, com os seus ideais libertadores, o seu patriotismo e internacionalismo, o seu espírito unitário antifascista, contribuíram decisivamente para a derrota do nazi-fascismo, as profundas transformações revolucionárias e progressistas que se seguiram à 2.ª Guerra Mundial - derrocada dos impérios coloniais e impetuoso desenvolvimento do movimento de libertação nacional, alargamento do campo socialista a um terço da humanidade, grandes avanços da classe operária dos países capitalistas e a instauração de uma nova ordem assente na ONU e na legalidade internacional.

 É esta ordem, fundamentalmente pacífica e antifascista, que, aproveitando a correlação de forças desfavorável, o imperialismo procura destruir e substituir por uma "nova ordem" dominada pelos EUA, que dê cobertura institucional e jurídica aos seus propósitos de hegemonia planetária.

É por isso necessária grande vigilância em relação à "reforma" da ONU que se prepara. E a defesa da Carta da ONU, a defesa dos princípios de soberania e não ingerência nos assuntos internos dos povos, o respeito pelo direito de cada povo a decidir do seu próprio destino, a reposição da legalidade internacional no Iraque (com a retirada das tropas ocupantes), na Palestina (com a retirada de Israel dos territórios ocupados e o respeito pelos direitos inalienáveis do povo palestiniano), na Península da Coreia (com o fim das ameaças à RDPC e a reunificação pacífica da Coreia), nas relações com Cuba (pondo fim ao criminoso bloqueio) e noutros pontos do mundo, revestem-se da maior importância no actual momento.

Estas algumas ideias que o PCP julga útil sublinhar nesta oportuna Conferência. Insistindo na importância enorme que tem para os combates que hoje travamos - numa situação que tem muitas semelhanças com a que precedeu a 2.ª Guerra Mundial - a reposição da verdade histórica.

Termino, por isso, camaradas e amigos, expressando uma posição de grande confiança na possibilidade de conter e derrotar o imperialismo e a sua política de exploração e de guerra. Esta posição foi claramente definida pelo XVII Congresso do nosso Partido, realizado em Novembro passado, com base na análise da crise do capitalismo e das grandes contradições e tendências do mundo contemporâneo. A ofensiva do imperialismo encontra pela frente a crescente resistência e a luta dos trabalhadores e dos povos. Mesmo lá onde são mais débeis as forças do progresso social e da paz, os povos não desistem de lutar.

A extraordinária centralização e concentração do capital e da riqueza alargam objectivamente o campo das forças anti-imperialistas e mesmo anticapitalistas. Grandes perigos coexistem com grandes potencialidades de transformação progressista da sociedade e de avanço para uma nova ordem de progresso e paz.

As lições da luta antifascista de seis décadas atrás ensinam-nos que lutar vale sempre a pena e que a vitória é possível.

É profunda convicção do PCP de que a melhor forma de comemorar o 60.º aniversário da Vitória e honrar a memória daqueles que deram a vida para que a liberdade vivesse, é reforçar a luta em cada país em defesa dos interesses dos trabalhadores e das massas, contra o neoliberalismo, o militarismo e a guerra, intensificar a solidariedade internacionalista para com os povos vítimas das ingerências e agressões do imperialismo, reforçar a cooperação de todas as forças anti-imperialistas.

Esta Conferência é, a nosso ver, uma boa contribuição dos nossos camaradas checos para estes objectivos.

 

"O Militante" - N.º 277Julho/ Agosto 2005

resistência na II guerra

A Resistência e o factor popular na Vitória

Por Albano Nunes
Membro da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central do PCP



A história da 2.ª Guerra Mundial não pode ser escrita sem considerar a Resistência e a luta popular antifascista e libertadora, pacífica e violenta, armada e não armada, legal e semi-legal ou clandestina, de massas ou de vanguardas audaciosas profundamente enraizadas nos seus respectivos povos.
A historiografia burguesa gosta de passar ao lado desta realidade que lhe é particularmente incómoda porque ela não só evidencia o papel determinante das massas no processo de transformação social, como obriga a reconhecer que a vitória sobre o nazi-fascismo tem uma profunda marca de classe anti-capitalista e anti-burguesa. E isto por quatro razões fundamentais. Porque o fascismo e o nazismo são um produto do próprio capitalismo, a ditadura terrorista do capital financeiro, na definição que dele deu a Internacional Comunista (1). Porque a escalada de Hitler só foi possível, primeiro com a complacência e a colaboração da Grã-Bretanha, França e outras democracias burguesas (2), e depois pela cobardia e traição das burguesias nacionais frente ao avanço das tropas nazis. Porque foram os comunistas e a classe operária dos países ocupados que ergueram a bandeira da luta de libertação nacional contra os invasores, juntando à sua volta numa frente amplamente unitária todos os patriotas e antifascistas sinceros. Porque foi a URSS, o primeiro país dirigido por operários e camponeses que, com o fervor patriótico e revolucionário do seu povo, deu a mais heróica e decisiva contribuição (mais de 20 milhões de mortos) para libertar a Humanidade do flagelo nazi-fascista.
Claro que a história da vitória é também, e em medida decisiva, a história da derrota militar da mais poderosa máquina de guerra e destruição do mundo. Uma história que envolveu terríveis batalhas militares, a perda de muitos milhões de vidas humanas, destruições colossais e cujo principal símbolo é militar: a imagem de um jovem soldado soviético colocando a bandeira da URSS na cúpula do Reichtag após a entrada em Berlim do glorioso Exército Vermelho. Mas por detrás de tudo isto estão as massas populares, os seus valores, os seus ideais, as suas aspirações libertadoras. De outro modo não teria sido possível vencer a longa batalha de Leninegrado nem iniciar a partir de Stalinegrado, a heróica cidade do Volga, a contra-ofensiva vitoriosa que encheu de esperança e reacendeu a confiança dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo, incluindo Portugal, onde é precisamente na primeira metade da década de 40 que, a par da reorganização do PCP e da sua transformação em grande partido nacional, o movimento operário e a unidade antifascista dão um gigantesco salto em frente (3).

Os comunistas na resistência

O exemplo mais expressivo e mais conhecido em Portugal da resistência à ocupação fascista é o da França. Aí, apesar da violência terrorista da repressão, a resistência nunca foi decapitada nem paralisada. Poucos dias depois da entrada das tropas alemãs em Paris (14 de Junho de 1940) o PCF lança o célebre Apelo à luta clandestina e à acção armada assinado por Maurice Thorez e Jacques Duclos, apelo que é ouvido por um povo traído por sucessivos governos burgueses que, depois de terem prendido os deputados comunistas e ilegalizado o PCF, acabaram por render-se entregando Paris e grande parte da França aos invasores e instalando em Vichy o governo fascista e colaboracionista de Petain. Das greves operárias à acção guerrilheira dos comandos de «franc tirers» desenvolveu-se por todo o país um poderoso movimento encabeçado pelos comunistas, ao qual aderiu o melhor da intelectualidade francesa. Nem as mais ferozes retaliações conseguiram travar um movimento que chegou a imobilizar enormes contingentes das forças de ocupação adquirindo também um forte peso militar. Milhares e milhares de trabalhadores e de patriotas foram presos, assassinados, deportados para campos de concentração na Alemanha. Mas a rede clandestina da resistência não foi paralisada e o prestigiado «L’Humanité», então órgão central do PCF, continuou a circular e a incitar à luta libertadora (4). A libertação de Paris em 18 de Agosto de 1944 e mais tarde a formação do primeiro governo do pós-guerra presidido pelo general de Gaulle (5) são produto de uma luta heróica em que o PCF, com cerca de 75.000 dos seus membros mortos, ganhou o honroso título de «o partido dos fuzilados». Se, com 26% dos votos nas primeiras eleições livres, o PCF se tornou o maior partido francês, isso se deve ao lugar certo que soube ocupar na luta de classes no momento porventura mais sombrio da história da França.

Luta antifascista alarga-se a todo o mundo

Com envergadura e características diversificadas, a resistência antifascista e a luta contra a guerra estendeu-se por todo o mundo. Na Europa em primeiro lugar, porque epicentro do conflito devastador que ceifou mais de 50 milhões de vidas, mais de metade das quais entre a população civil. Mas também nos demais continentes, tenham ou não sido palco de operações militares ou da imposição de ditaduras. As transformações revolucionárias anticolonialistas e os avanços progressistas do pós-guerra não teriam sido possíveis sem que por todo o lado, sobretudo após o imparável avanço do Exército Vermelho em direcção a Berlim, não crescessem os sentimentos antifascistas e não se desenvolvessem, sob influência directa de partidos comunistas ou do prestígio da URSS e da ideologia marxista, importantes movimentos de resistência e de luta progressista, incluindo nos EUA. Fora da Europa o mais original e espectacular exemplo – que de modo algum pode ser esquecido na hora de celebrar o 60º aniversário da Vitória – é a China, onde a revolução conduzida pelo Partido Comunista Chinês é inseparável da luta patriótica contra o invasor japonês, contribuindo decisivamente para a derrota do Japão, e onde, em 1 de Outubro de 1949, era solenemente proclamada a República Popular da China (6).
Na Europa a resistência desenvolveu-se com vigor, a Leste e a Oeste, incluindo na retaguarda das linhas nazis em território soviético. Assumindo em geral a forma de luta armada com destacamentos guerrilheiros, comandos, acções de sabotagem, alvos selectivos (7). Com formas de organização unitária envolvendo comunistas, socialistas, democratas cristãos, simples patriotas sem partido, mas onde em geral os comunistas desempenham um indiscutível papel de vanguarda. Clandestina, invariavelmente enraizada no interior dos respectivos países paredes meias com a besta fascista e colaboracionista, ao passo que a resistência burguesa, quando existiu (como no caso exemplar da Polónia) em geral se sediou no estrangeiro, muitas vezes agindo (como no caso igualmente exemplar da Grécia) como força avançada do imperialismo anglo-americano. É essa ligação popular profunda da resistência que explica que, terminada a guerra, as forças antifascistas e progressistas se tornassem dominantes. Apesar de todos os preconceitos, os partidos comunistas, que foram a alma da resistência na maior parte dos países e as principais vítimas do ódio e da repressão nazi-fascista, reforçaram no Ocidente a sua influência política, chegando mesmo a fazer parte dos governos do imediato pós-guerra na França, Itália, Áustria, Bélgica, Holanda, Dinamarca. No Leste da Europa foi-se ainda mais longe, com a constituição de governos revolucionários, a liquidação do poder da grande burguesia, a realização de profundas transformações democráticas e populares na Polónia, Hungria, Leste da Alemanha (posteriormente RDA), Bulgária, Checoslováquia, Roménia, Jugoslávia e Albânia. Transformações socialistas que beneficiaram sem dúvida da ajuda propiciada pela libertação soviética, mas só possíveis pela real influência de massas (indiscutível em países como a Checoslováquia ou a Bulgária com partidos comunistas históricos e uma forte resistência à ocupação) dos comunistas e seus aliados socialistas de esquerda e outros.

O exemplo jugoslavo

Justifica-se uma referência especial ao caso da Jugoslávia, pela extraordinária epopeia política e militar que representou e pelo significado que encerra tendo em vista a dramática situação actual na região. Apenas três meses após a capitulação do velho poder antipopular e do desmembramento do país, em Junho de 1941, o Partido Comunista da Jugoslávia lançou um apelo à preparação da insurreição geral armada. Sob a direcção dos comunistas, as diferentes nacionalidades do mosaico jugoslavo uniam-se contra o invasor, forjavam um Exército Popular de Libertação que em 1943 tinha já 300 mil homens em armas, organizavam por todo o país comités populares de libertação como órgãos de um futuro poder revolucionário, constituíam o Comité Nacional de Libertação presidido por Tito, libertavam vastas regiões do país lançando-se finalmente, no contexto favorável do avanço do Exército Vermelho, a 20 de Outubro de 1944, à libertação de Belgrado. A resistência jugoslava foi uma realidade poderosa que não pode ser esquecida. Ela mostra quanto de progresso e amizade multinacional pode a luta patriótica e revolucionária e quanto de destrutivo, reaccionário e desumano pode uma contra-revolução imposta do exterior pela guerra e a ocupação imperialista, cuja dramática expressão é bem visível na Bósnia, na Macedónia, no Kosovo.
Aqui se deixam alguns factos, apontamentos e reflexões sobre uma vertente, frequentemente esquecida mas decisiva, da Vitória – a resistência popular antifascista. E sobre o papel que nela desempenharam os comunistas, cuja coragem e determinação não seriam possíveis sem a estreita ligação à classe operária e ao povo, sem aquela qualidade intrínseca que é o de existirem para servir e combater todas as formas de injustiça e de desigualdade lá onde se manifestem e particularmente importante na hora actual, sem a compreensão profunda de que a sua luta, dure o tempo que durar e custe o que custar, se situa do lado certo da História.
À Vitória sucederam-se transformações sociais históricas em todo o mundo. Mas sucedeu-se também a «guerra fria» e mais tarde as dramáticas derrotas do socialismo na URSS e no Leste da Europa. Mas a História é assim mesmo. Progride irregularmente, no meio de grandes contradições, de avanços e recuos, de vitórias e derrotas. Hoje vivemos tempos de dramáticos retrocessos e de novos grandes perigos para toda a humanidade. Mas celebrando a Resistência daqueles anos sombrios e, sobretudo, estudando-a e combatendo as omissões e deformações dos nossos adversários de classe, estamos a preparar tempos de novos avanços libertadores.

Notas
  1. Em 1935, o VII Congresso da Internacional Comunista fez uma análise profunda das raízes sócio-económicas e ideológicas do fascismo e traçou a orientação para a acção dos comunistas no complexo período que precedeu a guerra.
  2. Trata-se da denominada «política de apaziguamento», cuja expressão mais conhecida é o Pacto de Munique de 30 de Setembro de 1938 que reconheceu a ocupação alemã dos Sudetas, desmembrou a Checoslováquia e abriu caminho à guerra. O paralelismo com o que hoje se passa em relação à ofensiva agressiva do imperialismo norte-americano, é evidente.
  3. São exemplos particularmente significativos, em 1943, as greves de Julho/Agosto na região de Lisboa e Margem Sul, as maiores até então sob o fascismo, e a criação em Dezembro do MUNAF, Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista.
  4. O «L’Humanité» clandestino terá difundido até à libertação de Paris mais de 50 milhões de exemplares (A. Rubbi). Entretanto há já vários anos que deixou de ser órgão central de PCF e hoje já não é propriedade sua.
  5. Não seria sério minimizar o papel da burguesia patriótica reunida em torno do general de Gaulle e do Comité Francês de Libertação Nacional sediado no exterior do país, nem a corajosa acção clandestina de muitos socialistas e outros antifascistas, que vieram a confluir com os comunistas no Conselho Nacional de Resistência. Mas o papel dos comunistas foi decisivo. No início de 1945, a Frente Nacional, criada e dirigida pelo PCF, contava com dois milhões de pessoas.
  6. Foi com a invasão da Manchúria pelo Japão em Setembro de 1931 que praticamente se iniciou a 2.ª Guerra Mundial.
  7. Muito pobre teria sido a resistência se então tivessem triunfado certas teses de «não violência» com que alguns hoje procuram cobrir o seu afastamento de posições anti-imperialistas, se não tivesse respondido à violência terrorista do ocupante com a violência libertadora.


«O Militante» - N.º 276 Maio/Junho 2005