Misericórdia: CDU contra construção de parque subterrâneo no Príncipe Real

Notícias vindas a público nos últimos dias em vários órgãos de comunicação social dão conta da intenção de uma empresa privada em construir um parque de estacionamento subterrâneo na Praça do Príncipe Real. Trata-se de um projecto que prevê a construção de 4 pisos subterrâneos com 300 lugares de estacionamento, numa estrutura desenhada em "L", 1-2 rampas de acesso para as ruas que acedem ao Príncipe Real, um elevador até à superfície, o abate de várias árvores e a previsão de construção de toda esta estrutura a menos de 1 metro das galerias do Aqueduto das Águas Livres.

 

Uma obra com esta envergadura provocará, seguramente, um grande impacto em toda a zona, uma vez que qualquer obra de engenharia afecta, inevitavelmente, toda a envolvente.

De há muito que existem vários pareceres técnicos que desaconselham qualquer tipo de intervenção na zona, e que vão bem além das questões ambientais ou de trânsito.

Por um lado, o projecto de construção do parque colide claramente com a existência de um monumento nacional no subsolo – o Reservatório da Patriarcal (que se insere num conjunto museológico constituído por quatro monumentos: o Aqueduto das Águas Livres, o Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras, o Reservatório da Patriarcal e a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos do Museu da Água), estrutura esta que se encontra dentro do perímetro de 50 metros que delimita a área de protecção do monumento nacional, podendo mesmo interferir com o sistema de túneis existente na Patriarcal e o Miradouro de São Pedro de Alcântara.

Depois, estamos a falar de um solo que, posteriormente ao terramoto de 1755, assenta em escombros provenientes de outras origens, isto é, de solos cuja compactação e estabilidade não são idênticos, desconhecendo-se, em grande medida, como uma construção em subsolo afectaria o jardim.

Há ainda, entre outros aspectos, a questão das águas subterrâneas que alimentam não só este jardim, e que são importantes para outras linhas de água existentes. Estamos na linha de cumeada que divide bacias hidrográficas: a nascente da Ribeira de Valverde, em que a recarga alimenta os jardins do Palacete Ribeiro da Cunha, do Jardim Botânico e de São Pedro de Alcântara; e a poente em que a recarga do aquífero, por sua vez, alimenta o aquífero de São Bento-Poço dos Negros e daí as zonas verdes desta encosta, nomeadamente o jardim da Praça das Flores.

A todas estas razões soma-se uma outra igualmente importante e que relaciona directamente com as questões do trânsito e da mobilidade. Do ponto de vista da CDU da Misericórdia, um tal projecto servirá para aumentar a pressão automobilística da zona, já de si insustentável e para a qual urge encontrar soluções em que prevaleça o bom senso e a oferta de políticas de transporte público sustentadas e integradas que permitam descongestionar aquela zona e promovam a qualidade ambiental de quem ali reside e de quem visita a zona.

Por todas estas razões, a CDU da Misericórdia manifesta-se frontalmente contra a construção desta aberração subterrânea e tudo faremos para impedir que a Câmara Municipal de Lisboa aprove esta construção, que degrada esta zona histórica da Cidade de Lisboa. Defendemos, isso sim, uma discussão que leve à aprovação de medidas com vista a melhorar a mobilidade na zona que passe, entre outras medidas, por um serviço público de transportes ao serviço das necessidades da população.