Humberto Delgado e as eleições presidenciais de 1958

Humberto Delgado e as eleições presidenciais de 1958

António Abreu
Engenheiro

1. Em finais de 1957 o Partido começou a encarar a actuação para aquelas eleições. Era necessário antes de mais encontrar um candidato que pudesse unir à sua volta todas as forças da oposição.

Depois de várias sugestões e tentativas considerou-se um convite ao engenheiro Cunha Leal. Para isso o camarada Gaspar Teixeira e eu próprio solicitámos-lhe uma entrevista, em nome do Partido, a que acedeu e onde expusemos o objectivo em vista. Cunha Leal ficou de pensar no assunto e aprazou-se nova entrevista. Acabou por aceitar em meados de Março e pouco depois começou a receber mensagens de apoio de jovens, mulheres e trabalhadores de vários pontos do País.

Para alargar e reforçar esse apoio foi decidido realizar um jantar de homenagem que teve lugar no restaurante “Castanheira de Moura” (ao Lumiar), em que seria tornada pública a sua candidatura. De entre as várias intervenções e do discurso de aceitação de Cunha Leal, destacou-se a intervenção da escritora Natália Correia, declamando um poema dedicado à memória de Catarina Eufémia, que comoveu as centenas de participantes e foi coroada por uma vibrante ovação.

Daí em diante passei a manter um contacto regular com Cunha Leal que me recebia sempre com a maior cordialidade. Numa dessas entrevistas quis-me ler o esboço do Manifesto Eleitoral a dirigir ao povo português e perguntou-me se o teor e os termos do Manifesto mereceriam o acordo do Partido. Não tive dúvidas em responder afirmativamente.

2. A certa altura fomos confrontados com o anúncio da candidatura do general Humberto Delgado, feito no Porto, parecendo-nos que a iniciativa partira de António Sérgio. Cunha Leal logo me questionou sobre a atitude que o Partido iria tomar face a este novo e preocupante facto. Respondi-lhe, sem hesitações, que nunca poderíamos apoiar tal candidatura, dados os antecedentes bem conhecidos da vida política do general. Cunha Leal retorquiu humoradamente que a palavra “nunca” não devia ser pronunciada em questões de ordem política.

Algum tempo depois fomos surpreendidos pela notícia de que Cunha Leal fora internado no Hospital da CUF e que a gravidade da doença o obrigava a desistir da sua candidatura.
É claro que esta nova situação, inesperada, nos deixou deveras preocupados e logo o Partido teve de começar a pensar na escolha de um candidato substituto.

À volta de um grupo de democratas que habitualmente se reunia na “Seara Nova” surgiu a possibilidade do Dr. Arlindo Vicente. Tendo então sido resolvido colocar-lhe essa difícil tarefa, ele, abnegadamente, aceitou o encargo (20/4).

Apesar das inerentes dificuldades que iria ter de enfrentar esta candidatura, marcadamente de esquerda, a campanha rapidamente se desenvolveu com muito entusiasmo contando com grande apoio, sobretudo das camadas de trabalhadores, como era natural, através de concorridos comícios realizados no sul do País.
Sucedeu, porém, que a candidatura de Delgado galvanizou o País inteiro e que o comportamento público do general surpreendeu toda a oposição ao regime fascista, pela clareza, firmeza e frontalidade com que se ia pronunciando e não havia dúvidas de que o Partido não mais poderia deixar de reconhecer a justeza e a amplitude do movimento nacional por ele desencadeado.

Parece-nos que a pérfida e ignominosa ofensiva desencadeada pelo Governo contra o general e particularmente a brutal intervenção da PIDE e das outras forças policiais contra as suas deslocações e acções de campanha eleitoral, só resultaram na sua crescente firmeza e combatividade.

3. Face a esta nova situação, foi resolvido convocar para Beja, em 29 de Maio de 1958 (onde se iria realizar um comício de Arlindo Vicente), uma reunião nacional dos representantes das Comissões de Apoio dos vários pontos do País, para se considerar a possibilidade de negociar com o general Delgado um acordo político que pudesse gerar a fusão das duas candidaturas e lhe permitisse vir a representar toda a oposição nas eleições que se aproximavam.

Obtido o acordo de Arlindo Vicente e de todos os delegados presentes nessa reunião, telefonámos de Beja para o general, que nessa noite iria realizar um comício em Cacilhas (Almada), propondo-lhe um encontro, antes do comício, onde se pudesse obter um acordo nesse sentido e, se resultasse, seria anunciado publicamente no decorrer daquele comício.

É claro que Salazar ficou preocupadíssimo com a eventualidade desse acordo, que certamente iria desencadear uma onda de entusiasmo, imparável, em todo o País. E a PIDE, que deve ter escutado aquele telefonema feito de Beja, logo entrou em acção. O carro em que seguiam, com esse destino, Arlindo Vicente e eu próprio, conduzido pelo camarada Domingos Carvalho, ao fim dessa tarde, foi interceptado por uma brigada da PIDE chefiada pelo inspector Farinha, acompanhada por uma força da GNR, no ponto em que o trajecto se bifurcava em duas direcções (Cacilhas ou Vila Franca). Fomos intimados pela força a seguirmos rumo a Vila Franca.

Chegámos já noite à Sede da candidatura de Arlindo Vicente (no Bairro Social do Arco do Cego) e verificámos que as imediações estavam vigiadas por uma brigada da PIDE chefiada pelo inspector Porto Duarte. Esperámos ainda algum tempo que esta vigilância abrandasse e foi já muito tarde que, deitados no banco posterior do carro para não sermos vistos, conseguimos chegar à Estação do Sul e Sueste (Terreiro do Paço) (*) .

Uma vez chegados ao local do comício que já estava prestes a terminar, subi à Academia Almadense, avistando-me com o capitão Carlos Vilhena e Rolão Preto que conseguiram avisar o general da nossa chegada. Verificada a impossibilidade de realizar ali mesmo o projectado encontro com o general, resolveu-se, por sugestão deste, que ele se realizasse em Lisboa na sua residência da Rua Filipe Folque.

Assim se procedeu, com a maior cordialidade, e foi já pelas 4 horas da madrugada (30 de Maio) que se obteve o desejado acordo, a anunciar no dia seguinte a todo o País.

4. Como era de esperar, daí em diante a campanha eleitoral redobrou de entusiasmo. É de salientar que os apoiantes iniciais de Arlindo Vicente e muito particularmente os membros do nosso Partido deram um importante contributo para a eficiência da actuação desenvolvida até ao dia das eleições.

Por essa altura, como a PIDE certamente verificaria a minha presença assídua e bastante activa na Sede do general (Avenida da Liberdade), aluguei um quarto para dormir (Rua Alexandre Braga), donde ia telefonando para minha casa, procurando evitar que a PIDE me prendesse antes do acto eleitoral.

Nas vésperas deste redigiu-se um Manifesto ao Povo Português, que seria assinado pelo general Delgado, por Arlindo Vicente, pelo professor Vieira de Almeida e por mim próprio, como representante da respectiva Comissão de Apoio, manifesto esse em que se apelava à participação massiva à boca das urnas e à vigilância destas face às habituais falcatruas dos agentes de Salazar. O Manifesto não chegou a sair, tendo sido assaltada pela PIDE a tipografia onde seria impresso.

Num desses dias dirigiu-se-me na Sede, já restabelecido, o Engenheiro Cunha Leal que humoradamente me observou o despropósito do termo “nunca” que eu havia pronunciado em sua casa aquando do anúncio da candidatura de Humberto Delgado.

Podemos afirmar que nos últimos dias da campanha eleitoral éramos praticamente nós, Arlindo Vicente, eu próprio e outros elementos da nossa candidatura, que mantínhamos o funcionamento da Sede, enfrentando o cerco e as violências da PIDE.

5. No próprio dia do acto eleitoral (domingo, 8 de Junho), ao encerrarmos a Sede, a PIDE esperava por mim à saída. Arlindo Vicente e uma senhora advogada, de Torres Vedras, cujo nome não me recordo, deram-me o braço, um de cada lado, e logo a brigada da PIDE procurou soltar-me, sem êxito, desse forte abraço. Assim fomos descendo a Avenida da Liberdade, aqueles amigos segurando-me fortemente e os agentes da PIDE puxando-me pelo casaco que chegaram a rasgar.

Próximo do cinema Condes, aproveitando uma distracção e a passagem de um táxi, eles conseguiram isolar-me para forçar a minha entrada nesse táxi. Subi ao estribo do carro e soltei um viva ao general Delgado, procurando atrair as pessoas que se aproximavam. Senti então no pescoço a pressão de uma pistola empunhada por um dos agentes. Os meus amigos conseguiram de novo dar-me os braços e a caminhada continuou até à esquina do Teatro Nacional (Rossio), onde nos esperava já o famigerado Seixas. Este ameaçou de prisão Arlindo Vicente e aquela senhora advogada, se não me largassem, e pouco depois era conduzido ao Aljube, onde permaneci cerca de 10 dias. Soube então que também o professor Vieira de Almeida tinha sido detido e encarcerado no Aljube (o pretexto destas prisões deve ter sido a assinatura do Manifesto acima referido).

6. Após a burla eleitoral e esse período de prisão, mantive contactos regulares, em nome do Partido, com o general, na sua própria residência, onde sempre me recebeu com toda a gentileza, originando mútua consideração e simpatia.

Efectivamente pensávamos que o general, pela conduta digna e vigorosa demonstrada ao longo da campanha, deveria tornar-se o polo aglutinador das forças da oposição até à insurreição nacional que deveria levar ao derrubamento do regime fascista.

Foi por isso que, na última visita aprazada a sua casa, quando a empregada que abriu a porta me informou de que o general havia pedido asilo à Embaixada do Brasil, fiquei surpreendido e seriamente preocupado.

É que a saída do País do general iria certamente enfraquecer o movimento que a campanha produziu. E estou pessoalmente convencido de que foram alguns elementos da oposição, tementes da confiança depositada pelo general no nosso Partido, que trabalharam de sapa para levar o general a tomar aquela inesperada decisão.

Além de prejudicar gravemente a actuação futura do movimento de oposição ao regime fascista, a deambulação do general, no exílio, ora aqui, ora ali, iria facilitar o aparecimento de intrigas políticas e permitir as manobras tenebrosas de Salazar e da PIDE. E de facto foi o que acabou por acontecer com o ardiloso e cobarde assassinato do general Delgado e da sua secretária, na emboscada que lhe montaram em Badajoz em 1965.

Não tivesse ele tomado a errada decisão de se exilar e pessoalmente estou convencido que o 25 de Abril teria sido antecipado de alguns anos.

(*) Meses mais tarde, ao recebermos no escritório de Arlindo Vicente um agente da PSP, agora colocado em serviço de Tribunais, este confidenciou-nos que fizera parte da força da PSP que esteve em serviço naquela estação, que tinha notado a nossa presença mas que fingira não nos ter visto...

Manifesto conjunto das Duas Candidaturas:

Portugueses!

A Oposição Independente e a Oposição Democrática, representadas pelos seus candidatos à Presidência da República, senhor General Humberto Delgado e senhor Doutor Arlindo Vicente, em face da necessidade de estabelecer, nas urnas, uma unidade de acção contra o Governo da Ditadura, verificaram ser útil, e até decisivo, proceder imediatamente a tal unidade e, para isso, estabelecer a actuação comum nos seguintes termos que se comunicam à Nação:

As Candidaturas prosseguirão, a partir desta data, a trabalhar em conjunto, e no final, representadas nas urnas por um só Candidato, o General Humberto Delgado, que se compromete, por sua honra, e salvo caso de força maior, a tornar efectivo o exercício do voto até às urnas e estabelecer, em caso de êxito, o seguinte:

a) Condições imediatas de aplicação do Artº 8º da Constituição;
b) Exercício de uma Lei Eleitoral honesta;
c) Realização de eleições livres até um ano após a constituição do seu Governo;
d) Liberdade dos presos políticos e sociais;
e) Medidas imediatas tendentes à democratização do País.

Viva Portugal!
Viva a Liberdade!

Lisboa, 30 de Maio de 1958
aa. Humberto Delgado
       Arlindo Vicente

«O Militante» Nº 236 - Setembro / Outubro - 1998