José Dias Coelho

José Dias Coelho - A morte saiu à rua...

José Dias Coelho - A morte saiu à rua...

Margarida Tengarrinha


Não é fácil deduzir a profundidade do pensamento e da personalidade de alguém pela mera enumeração cronológica dos seus dados biográficos, apresentados a seco.

Na vida de José Dias Coelho há uma data decisiva, o ano de 1955, que tem um real significado para entender a sua opção de vida: é em 1955 que entra na clandestinidade como funcionário do Partido Comunista Português, sabendo que a tarefa que lhe está designada é montar uma oficina de falsificação de documentos, bilhetes de identidade, licenças de bicicleta, cartas de condução, passaportes, etc., para defesa dos militantes clandestinos no trabalho de organização e nas relações internacionais do Partido. Em finais de 1954 já tinha preparado um passaporte para que Sérgio Vilarigues se deslocasse ao estrangeiro; estava, portanto, claro para ele o tipo de trabalho que o esperava, obscuro, monótono, fechado, tão oposto à sua vocação de escultor e aos seus hábitos de convívio e tertúlias com os intelectuais e artistas, da agitada vida cultural da Lisboa de então.

É também em 1955 que termina as primeiras grandes encomendas públicas de escultura: dois grupos escultóricos para a Escola Primária de Campolide (secções feminina e masculina) e uma grande escultura para a Escola Primária de Vale Escuro, em Lisboa, assim como um baixo-relevo para o Café Central das Caldas da Rainha, na sequência dos que executara para o Café Gelo (de que existe uma cópia no painel da Soeiro Pereira Gomes) e outro para a fábrica Secil. Com estas obras abriam-se boas perspectivas à sua carreira de escultor, que começava a ser conhecido e a receber críticas elogiosas no meio artístico.

São estas perspectivas promissoras e esta carreira artística que ele abandona em 1955, com a certeza de que não poderia (nem queria) voltar atrás, para encetar um caminho de dedicação total e de riscos na batalha antifascista liderada pelo PCP, que iria terminar em 19 de Dezembro de 1961, assassinado a tiro pela PIDE numa rua de Lisboa.

Estava já na clandestinidade quando, em Junho de 1956, se realiza a 10.ª e última das Exposições Gerais de Artes Plásticas para a organização das quais tinha dado tanto do seu esforço. É em reconhecimento desse seu papel que o núcleo de amigos que a prepararam fez questão de marcar a presença do ausente com uma obra de escultura para que o seu nome figurasse no catálogo.

Foi uma acção de solidariedade discreta, mas significativa, porque os  organizadores das Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAP’s) tinham a noção do sacrifício que representara para  José Dias Coelho o abandono da sua vida artística e prestavam assim homenagem a um dos grandes dinamizadores destas exposições.
 
Um obreiro da unidade antifascista dos intelectuais
 
A participação activa de José Dias Coelho na dinamização das Exposições Gerais de Artes Plásticas, como organizador desde a primeira realizada em 1946, e expositor desde a segunda, decorre da sua consciência da ampla abertura unitária que elas promoviam no meio artístico e da sua capacidade de desenvolver os largos consensos que elas implicavam, em grande parte facilitados pelo prestígio, a simpatia e o respeito pelas suas convicções, que muitos artistas e intelectuais, alguns bastante mais velhos, por ele sentiam.

Recordo, por exemplo, a amizade que manteve com o arquitecto Keil do Amaral, com o Mestre Abel Manta e os doutores Avelino Cunhal e Arlindo Vicente, que expunham nas EGAP’s, assim como com intelectuais do meio literário como Manuel Mendes e sua mulher «Bá», Fernando Namora, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade e José Cardoso Pires, entre outros, que aceitaram colaborar em várias acções comuns, pelo prestígio de José Dias Coelho e a confiança que lhes merecia. O seu papel constituiu assim um importante factor de alargamento da frente intelectual antifascista, que nunca permitiu espaço de manobra e de credibilidade aos intelectuais servidores do regime.

As EGAP’s abriram as suas portas e congregaram unitariamente os artistas que se negavam a pactuar com a orientação definida por Salazar como a «política do espírito» e que António Ferro procurava levar à prática no campo da cultura e particularmente nas Artes Plásticas, com o seu Secretariado da Propaganda Nacional que fora criado em 1933 segundo a matriz nazi, adaptada inteligentemente às nossas condições nacionais.

Sem que se exercessem pressões nem censuras de carácter político ou estético, nas EGAP’s reuniam-se os artistas que tinham, de forma mais ou menos explícita, ideais antifascistas. E é um facto incontroverso que, no decurso dos anos em que se realizaram, elas conglomeraram o que de mais válido e significativo surgiu nas artes plásticas em Portugal.

De 1946 a 1956 elas constituíram uma ampla abertura para a apresentação de manifestações artísticas que lutavam pela conquista da expressão livre, pelo que a cada artista interessava exprimir como fundo e forma e, em última análise, contribuíram para fomentar uma renovação no panorama artístico português. Acolheram pela primeira vez a fotografia como expressão artística e deram um incremento enorme à gravura nas suas várias modalidades, dentro do critério de que a gravura é uma das formas de arte que mais facilita a multiplicação e a divulgação ampla entre as camadas populares. Também pela primeira vez aparecem expostos maquetes e projectos arquitectónicos modernos e inovadores.  

Com as Exposições Gerais de Artes Plásticas a arte portuguesa encontrou o veículo adequado para o embate contra os obscurantismos estéticos, contra  as limitações impostas por um meio restritivo e preconceituoso em que imperavam os velhos bonzos que dominavam os júris das exposições na Sociedade Nacional das Belas Artes, ferozmente limitativos de toda e qualquer expressão de renovação artística.

E é assim que nas EGAP’s surgem, com a força e a pujança da juventude, novas camadas de artistas que não tinham acolhimento nos poucos locais de exposição existentes na época, nem queriam pactuar com o Secretariado da Propaganda Nacional de António Ferro e que iriam afirmar-se no futuro como artistas marcantes na arte portuguesa. Entre eles Júlio Pomar, Rolando Sá Nogueira, João Abel Manta, Rogério Ribeiro, João Hogan, Alice Jorge, Cipriano Dourado, Lima de Freitas, Pavia, António Alfredo,  Querubim Lapa, Jorge Vieira, Vasco da Conceição, Maria Barreira, Lagoa Henriques, Guilherme Casquilho, os arquitectos Castro Rodrigues, Celestino de Castro, Sena da Silva  e muitos outros que se contavam entre os amigos de Dias Coelho e junto dos quais manteve uma influência política, quer no âmbito do Partido, quer do MUD Juvenil, na luta pela Paz, ou simplesmente na consciência antifascista.

Com muitos deles irá travar batalhas contra os métodos pedagógicos arcaicos  na Escola de Belas Artes e pela eleição de júris idóneos e abertos à modernidade das exposições da SNBA, lutas de grande amplitude unitária, que levaram à demissão do director da ESBAL, o incompetente Cunha «Bruto» e à expulsão do oficialíssimo Eduardo Malta de sócio da SNBA e ao encerramento desta como retaliação.  

Com a sua capacidade de mobilização, Dias Coelho encabeça grandes movimentações dos estudantes de Belas Artes pela Paz, particularmente quando da reunião ministerial do Pacto do Atlântico, em 1952 no Instituto Superior Técnico, pelo que é expulso, quer como aluno, quer da Escola Marquês de Pombal onde lecciona.

É no decurso da sua intensa  participação em todas as lutas estudantis da época, como membro do MUD Juvenil desde a sua fundação em 1946, que José Dias Coelho conhece e se liga com profunda amizade a jovens que iriam dirigir os movimentos de libertação colonial, como Agostinho Neto, Vasco Cabral, Marcelino dos Santos,  Amílcar Cabral e Orlando Costa.  

Adere ao Partido Comunista em finais dos anos quarenta, sendo preso pela PIDE em 1949 como activista na campanha eleitoral de Norton de Matos.

O  conceito de revolucionário profissional

À volta de José Dias Coelho tinha-se criado, ao longo dos anos, uma rede de amizades, um vasto grupo de amigos e amigas, muitos dos quais militantes activos do Partido, outros de movimentos unitários, do MUD Juvenil e das lides da Paz, ou até sem compromisso político, ligados pelo seu caloroso e leal sentido da amizade, pela sua dimensão humana, bondade e tolerância que, de uma forma rara, se aliavam a uma grande firmeza de carácter e às profundas convicções de militante comunista.

Com alguns deles manteve ligações, mesmo depois de entrar na clandestinidade, para conseguir fornecimentos de alguns materiais necessários à tarefa das “falsificações”. Transmitiram-lhe a emoção daqueles que se tinham apercebido do seu desaparecimento e levantaram  várias objecções, considerando que seria muito mais importante para a luta que ele se mantivesse na «legalidade», dada a influência que exercia no meio intelectual.

Foi ao contar-me essas conversas que me apercebi da sua profunda consciência da necessidade de existirem militantes totalmente dedicados à luta, de revolucionários profissionais, para um Partido como o nosso. Portanto, da sua decisão de deixar tudo para trás e dar-se a tempo inteiro a uma tarefa  aparentemente tão obscura e modesta como a nossa, mas prioritária, mesmo em relação ao papel e à influência que ele poderia desenvolver entre os intelectuais.

Na verdade, para os jovens comunistas dessa época, a categoria de «funcionário do Partido» merecia um respeito e admiração muito especiais.

Esse núcleo, do qual dependia a organização de toda a estrutura partidária, sempre foi fundamental para o funcionamento e a ligação às massas trabalhadoras e aos outros sectores mobilizados pelo Partido.   

Durante os anos que passámos a trabalhar na oficina de falsificações fomo-nos compenetrando da real utilidade que representava criar melhores condições de defesa para o avanço da organização.     

Quando, em fins de 1960, inícios de 1961, mudámos definitivamente de tarefa, José Dias Coelho passou a integrar a direcção partidária de Lisboa, com a responsabilidade do sector intelectual. Tomou então uma nova dimensão a sua extraordinária capacidade de alargar a influência política do Partido, factor fundamental para o fortalecimento da oposição ao fascismo no seu conjunto.

Viviam-se tempos difíceis para a unidade antifascista, quando Salazar concentrava todas as forças do seu brutal aparelho repressivo contra o Partido e visava as principais personalidades da oposição democrática não comunista que considerava susceptíveis de alinhar com os comunistas, criando-lhes dificuldades a nível profissional, de emprego e carreira, fazendo-lhes uma marcação cerrada, com a sua eficaz táctica de intimidar e de tirar o pão aos adversários. Era notória a retracção entre muitos intelectuais e oposicionistas em relação aos contactos com militantes ou funcionários, além de que surgiam justificações de teor ideológico, que não eram mais do que cobertura para o medo da repressão.

É neste quadro que José Dias Coelho, bem consciente do seu papel de revolucionário profissional, procura ligações de conhecimentos antigos, arrisca contactos, marca encontros e consegue ir refazendo fios do sector intelectual e da oposição graças, em grande medida, ao prestígio que ainda mantinha no meio, à sua capacidade de diálogo, num clima de tolerância e abertura, que não excluía a firmeza de princípios e convicções. Graças a esses esforços consegue organizar e dinamizar  várias acções da oposição, que possibilitaram condições para a preparação das «eleições» para a Assembleia Nacional marcadas para 12 de Novembro de 1961 e para o desencadear de uma larga agitação política que tinha como fulcro o repúdio e desmascaramento da guerra colonial.

Estávamos em 1961, ano de um forte abalo no regime fascista.

Logo no início do ano houve o assalto ao paquete Santa Maria, baptizado de «Santa Liberdade»  por Henrique Galvão, o que constituiu um escândalo internacional contra a ditadura salazarista.

Em 4 de Fevereiro, com o início da insurreição do povo angolano começaram as guerras coloniais, tendo o Partido Comunista desencadeado desde logo a luta contra a guerra.

Antes e depois das «eleições» de Novembro realizaram-se manifestações contra a farsa eleitoral, tendo sido morto o camarada Cândido Martins na manifestação de Almada.

No dia 4 de Dezembro um grupo de dirigentes comunistas consegue fugir audaciosamente de Caxias no carro blindado de Salazar.

Poucos dias depois dá-se a queda de Goa, início da derrocada do império colonial português.
Salazar, desesperado e raivoso pelos sucessivos reveses que o regime vinha sofrendo, exige ao chefe da PIDE que intensifique os métodos repressivos e a vigilância de rua. A partir de 15 de Dezembro foram efectuadas sucessivas prisões de camaradas da direcção do Partido, entre os quais Octávio Pato, Pires Jorge, Carlos Costa e Américo de Sousa..

É então que José Dias Coelho, responsável de um sector extremamente vulnerável, é detectado pela brigada da PIDE chefiada pelo criminoso José Gonçalves e assassinado a tiro, na rua que hoje tem o seu nome, no dia 19 de Dezembro de 1961. Cumprindo até ao fim o seu dever de revolucionário profissional.

José Dias Coelho - Um artista revolucionário

José Dias Coelho - Um artista revolucionário

 
No espaço das artes plásticas da Festa do Avante! estará em destaque a vida e a obra de José Dias Coelho, artista plástico e funcionário clandestino do PCP, assassinado pela PIDE em Dezembro de 1961. Durante a sua vida de revolucionário, este genial artista colocou o seu talento ao serviço da causa da democracia e do socialismo e do seu Partido, o PCP.

A vida de José Dias Coelho está indelevelmente ligada ao PCP e ao jornal que dá nome à Festa que este ano o evoca, 45 anos depois da sua morte. Artista plástico de grande sensibilidade, José Dias Coelho colocou todo o seu talento e saber ao serviço do seu Partido.

Na clandestinidade, entre outras tarefas, trabalhou na oficina de falsificações de documentos. Graças aos seus firmes dedos de artista, foi possível a muitos destacados militantes e dirigentes comunistas escaparem às garras da repressão. São suas muitas das mais conhecidas e significativas gravuras que, durante anos, surgiram na imprensa clandestina do Partido. A tipografia clandestina ou Jovem Comunista são apenas algumas das suas mais relevantes obras artísticas.

Possuidor de uma sensibilidade multifacetada, foi também responsável pela edição de um livro sobre a violência e repressão fascista e a luta pela democracia em Portugal. Interrompido pela sua morte prematura – assassinado pela polícia fascista – o livro A resistência em Portugal(escrito em estreita colaboração com a sua companheira Margarida Tengarrinha) circulou clandestinamente no País e conheceu edição legal poucos meses após a Revolução.

Na Festa do Avante! estarão patentes obras das várias fases da vida deste artista plástico, enquanto estudante de Belas Artes e, depois, enquanto funcionário clandestino do PCP.

Em Janeiro de 1962, o Avante! publica na primeira página uma gravura representando José Dias Coelho. Uma gravura de stencil, feita com a mesma técnica que ele tantas vezes utilizou. Ao lado, um texto de denúncia da repressão e de mais um crime do fascismo. Linhas de louvor a uma vida dedicada a uma causa maior. Um texto de raiva, em que é visível uma dor lancinante. Mas, sobretudo, um texto que deixa transparecer a confiança e a determinação em prosseguir a luta contra o fascismo e pela construção de um Portugal livre e justo a que José Dias Coelho dedicou toda a sua vida, talento e sensibilidade. Como o próprio Dias Coelho escreveu um dia, «das sementes lançadas à terra é do sangue dos mártires que nascem as mais copiosas searas». O seu exemplo deu frutos e dele – e do de outros – se fez Abril.

Transcrevemos, na íntegra, esse texto histórico:

A PIDE assassinou José Dias Coelho

«No dia 19 de Dezembro foi assassinado a tiro pela PIDE na Rua dos Lusíadas em Alcântara o camarada José Dias Coelho, de 38 anos de idade, membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português.

«O crime foi cometido por uma brigada de 5 agentes da PIDE que saindo de um automóvel o assaltaram em plena rua, disparando dois tiros contra o nosso camarada, que não tinha consigo qualquer arma. Um tiro à queima roupa, em pleno peito, deitou-o por terra e outro foi disparado com ele já no chão.
«Isto passou-se cerca das 8 horas da noite. Precipitadamente, os assassinos meteram o nosso camarada no automóvel e só 2 horas depois o foram entregar, já a expirar, no Hospital da CUF. Que fizeram os bandidos da PIDE a este homem moribundo, nas duas horas em que o tiveram em seu poder?

«Sabemos que o nosso camarada ao chegar ao hospital, tinha somente um bilhete de identidade consigo. Desaparecera a carteira, com 20.000$00, o retrato da filha, a própria aliança. Depois do crime, cometido friamente, os assassinos da PIDE tiveram a crueldade de deixar sem socorros médicos durante duas horas um homem gravemente ferido, que eles não sabiam se se poderia salvar e não hesitaram em roubá-lo.

«Era intuito dos criminosos esconderem a identidade do nosso camarada, para evitarem os protestos da família e dos amigos e a indignação do nosso povo por mais este crime enterrando-o sob uma falsa identidade. Isto porque José António Dias Coelho era um conhecido escultor, com muito prestígio no meio artístico e intelectual. E o seu assassinato levantou nesses meios e em todo o povo trabalhador a mais viva repulsa e protesto.

«Ainda muito jovem, José Dias Coelho aderiu à Frente Académica Antifascista e, mais tarde, já aluno de Belas Artes, fez parte do MUD Juvenil, tendo participado em várias lutas académicas, nomeadamente no movimento de protesto contra a demissão dos professores das várias faculdades, que culminou com a luta contra as forças repressivas na Faculdade de Medicina, em 1947.

«Foi um dos dirigentes das lutas da sua escola pela Associação Académica, das lutas em defesa da paz e contra a reunião do Pacto do Atlântico em Lisboa em 1952, pelo que foi expulso da Escola Superior de Belas Artes, proibido de ingressar em qualquer outra faculdade do País, e demitido do seu lugar de professor do Ensino Técnico.

«Ele poderia ter sido um bom escultor, pois era um artista cheio de sensibilidade e talento, mas nunca quis dissociar a sua vida de homem, os deveres que lhe impunham os seus elevados ideais, da sua actividade de artista. Por isso sacrificou à sua coerência de vida a carreira artística e ingressou no quadro de funcionários do Partido Comunista, onde melhor poderia lutar pela libertação do nosso povo da tirania fascista. Membro do Partido há muitos anos, durante os sete anos que viveu na clandestinidade, José Dias Coelho entregou-se totalmente ao trabalho do Partido, com uma dedicada abnegação que levou até ao sacrifício da própria vida.

«Como Dias Coelho escreveu ao recordar a memória de Maria Helena Magro, falecida na clandestinidade, nós repetimos a seu respeito: “Não te dizemos adeus, camarada! As tuas mãos cerradas não com as nossas mãos cerradas. A tua voz vai com as nossas vozes cantar mais alto a liberdade do nosso povo e, sob a bandeira do nosso Partido, os teus olhos hão-de olhar com os nossos olhos, o Portugal feliz que não reviveste.”»

Apelo

«Este crime não pode ficar impune! Corre um abaixo-assinado em vários pontos do País exigindo um inquérito e castigo dos culpados. Subscrevamo-lo!

«Façamos telefonemas e enviemos telegramas, cartas e postais ao Governo, ao Ministro do Interior e às autoridades locais, civis e religiosas, exigindo o castigo dos culpados!

«Por toda a Europa, onde este crime causou a maior repulsa, corre um abaixo-assinado entre os intelectuais, com um protesto dirigido ao governo português. O Socorro Popular francês enviou à embaixada portuguesa em Paris um veemente protesto contra este crime do fascismo salazarista.

«Exijamos o imediato castigo do bando de assassinos da PIDE!»

Os assassinos

«Dos 5 agentes da brigada da PIDE que na noite de 19 de Dezembro abateram a tiro o camarada Dias Coelho, só dois se identificaram: o assassino, agente Manuel Lavado, morador na Estrada da Damaia, 43, r-c D.º, e o agente n.º 396, Pedro Ferreira.

«Tudo leva a crer que esta brigada era chefiada por José Gonçalves, criminoso conhecido da PIDE e assassino confesso do camarada Alex, em 1945.

«Estes criminosos, como tantos outros que mantêm pelo terror e o crime a tirania salazarista, não ficarão impunes. Um dia virá em que a justiça popular os alcançará lá onde eles estiverem!»

Artigo publicado na Edição Nº1705  do Avante!

José Dias Coelho, artista militante e militante revolucionário

José Dias Coelho, artista militante e militante revolucionário

Margarida Tengarrinha


José Dias Coelho tinha 38 anos quando uma brigada da PIDE o assassinou a tiro na antiga rua da Creche, que hoje tem o seu nome, em Alcântara.

Uma vida curta, desde muito cedo marcada por dois traços que iriam definir a sua personalidade: um raro talento artístico e a revolta contra as injustiças sociais e a opressão. Com treze/catorze anos, ainda estudante liceal, já era notado pela invulgar qualidade dos seus desenhos e a expressividade das caricaturas de colegas e professores. Vivia então em Castelo Branco, onde, pela proximidade da fronteira, se sentia fortemente a Guerra Civil de Espanha que seu pai, velho republicano, denunciava como um crime contra a Frente Popular e a República livremente eleita pelo povo espanhol.

A «Guernica» de Picasso (arrasada pelo bombardeamento da aviação nazi em 1937), assim como a pomba por ele desenhada para o Movimento Mundial da Paz, iriam ser para o Zé referências marcantes no seu percurso artístico e na sua opção política. Por isso, desde a primeira biografia do Zé que escrevi para a edição de «A Resistência em Portugal» editada em 1963 na União Soviética, lhe chamei Artista Militante e Militante Revolucionário, os dois traços indissociáveis do seu carácter, que iriam marcar o seu percurso de vida.

Escrevi então: «Artista militante e militante revolucionário, chegou a um momento da sua vida em que decidiu conscientemente sacrificar a sua actividade artística para continuar, no quadro de funcionários do Partido Comunista Português, o combate pelo derrubamento do fascismo e por um Portugal socialista. Foi um grande sacrifício. Mas nunca o ouvi pronunciar a palavra sacrifício.»