António Armando da Costa na comemoração do 60º aniversário da morte de Bento de Jesus Caraça

Camaradas:

Este ano de 2008 caracteriza-se por duas efemérides trágicas da nossa História: os 60 anos da morte de Bento de Jesus Caraça a 25 de Junho de 1948, e os 50 anos das eleições em que o Fascismo através duma fraude eleitoral que cobriu todo o País, derrotou o então General Humberto Delgado. Encontramo-nos aqui a comemorar a primeira destas efemérides neste Centro de Trabalho Pedro Soares do bairro de Campo de Ourique de Lisboa onde morreu, Centro que estou certo Bento Caraça muito gostaria de ter visitado, para almoçar connosco.

O camarada Bento de Jesus Caraça foi um dos maiores intelectuais portugueses do século XX. A sua acção estende-se pela actividade científica e pedagógica no âmbito da Matemática, pelo seu esforço na divulgação do Conhecimento, e pela sua actividade política no plano teórico e prático. No plano político teórico há a assinalar duas importantes contribuições para o desenvolvimento da teoria do materialismo. São elas a concepção materialista da Matemática; e o papel do indivíduo, enquanto pertença do colectivo, no desenvolvimento da História. No plano político prático foi um dos fundadores do Movimento da Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), que, mais tarde, haveria de dar origens ao Movimento de Unidade Democrática (MUD) e distinguiu-se na sua acção em prol do Socorro Vermelho Internacional.

Nascido a 18 de Abril de 1901, na Rua dos Fidalgos, em Vila Viçosa, numa modesta dependência do Convento das Chagas, onde se alojavam alguns criados da casa de Bragança, Bento de Jesus Caraça era filho de trabalhadores rurais, João António Caraça e Domingas Espadinha. O recém-nascido era tão enfezado que as pessoas, temendo que ele morresse, trataram de o baptizar com urgência. Na falta de melhor nome chamaram-lhe Bento de Jesus, juntando Caraça da parte do pai. Viveu os primeiros cinco anos da sua vida na "herdade da Casa Branca", na freguesia de Montoito, onde aprendeu a ler e escrever com um trabalhador, José Percheiro, que para além das primeiras letras e das primeiras contas, lhe ensinou também o valor humano da solidariedade.

A extraordinária rapidez com que aprendia, impressionou a esposa de Raul de Albuquerque de quem o pai de Bento era feitor, que decidiu tomar a seu cargo a educação do jovem, sem suspeitar que estava a lançar as sementes do saber naquele que viria a ser um dos mais notáveis vultos da ciência e da cultura portuguesas.

O exame de Instrução primária fê-lo em Vila Viçosa em 1911 e depois de passar pelos Liceus de Santarém e Pedro Nunes, entrou em 1918 para o Instituto Superior de Comércio, mais tarde Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) e hoje Instituto Superior de Economia e Gestão, tendo no inicio de dar explicações para poder custear os seus estudos. Porém logo em Novembro de 1919 foi nomeado 2.º assistente do 1.º grupo de cadeiras do ISCEF. Licenciou-se com altas classificações em 1923, tendo chamado a atenção do Professor Aureliano Mira Fernandes que promoveu a sua passagem a 1.º assistente em Dezembro de 1924, e mais tarde à sua nomeação como professor catedrático da 1.ª cadeira (Matemáticas Superiores, Álgebra Superior, Princípios de Análise Infinitesimal e Geometria Analítica) em Dezembro de 1929.

A sua entrada para o PCP não se encontra definida, mas já em 1929 afirmou: creio que a classe proletária está destinada a, num futuro mais ou menos próximo, tomar nas suas mãos a direcção dos destinos do mundo, transformando por completo toda a organização social existente. Em 1931, passou a integrar uma organização do próprio PCP, o NIS ou NTI, Núcleo de Intelectuais Simpatizantes ou Núcleo de Trabalhadores Intelectuais, o que mostra que desde a sua criação, os problemas e preocupações dos intelectuais foram assumidas pelo PCP.

A sua acção científica foi vasta: em 1936 funda o Núcleo de Matemática, Física e Química juntamente com outros recém-doutorados nas áreas da matemática e física; em 1938 com os professores Mira Fernandes e Beirão da Veiga, funda o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, que dirigiu até Outubro de 1946, ano da sua extinção pelo Governo; em 1940 com os professores António Monteiro, Hugo Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar criou a Gazeta de Matemática, onde colaborou activamente, bem como nas. revistas Técnica, Gazeta de Matemática, Seara Nova, Vértice e Revista de Economia.

A sua acção de divulgação científica não tem paralelo. Em 1919 fundou a Universidade Popular Portuguesa integrando o seu Conselho administrativo, e em 1928 a respectiva Presidência, tendo procedido então a uma grande remodelação desta instituição. Em 1941 cria a Biblioteca Cosmos, para edição de livros de divulgação científica e cultural, a qual publicou 114 livros, com uma tiragem global de 793 500 exemplares. Ele entendia que o conhecimento não era privilégio de alguns, mas tinha de ser amplamente disponibilizado às massas populares.

A sua acção em prol do desenvolvimento da teoria do materialismo leva-o a esclarecer o papel do individuo na actuação colectiva visando a libertação da sociedade, nessa conferência admirável de 1933 que é A Formação Integral do Individuo Problema Central do Nosso Tempo, complementada mais tarde pela conferencia Escola Única em 1935, onde se defendiam os conceitos de escola pública universal, gratuita e de qualidade; e a publicar Os conceitos Fundamentais da Matemática, aonde lançou as bases da natureza materialista da Matemática.

Em 1946 o governo fascista pretendeu filiar Portugal na Organização das Nações Unidas. A comissão Central do MUD publicou um documento subscrito por Bento de Jesus Caraça aonde se declarava que Portugal era uma sociedade dominada por um Estado fascista que não podia aspirar a dialogar com as democracias e fazer parte de tal Organização. A ira do fascismo abateu-se sobre todos e Bento Caraça foi preso e submetido a maus-tratos pela PIDE. Foi libertado mas expulso das Universidades Portuguesas como Ruy Luís Gomes e Ferreira de Macedo, e condenado a morrer de fome. Em consequência, O Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia foi sumariamente extinto no mesmo ano, o que teve consequências dramáticas para o desenvolvimento da Matemática em Portugal.

Morreu de ataque cardíaco, induzido pelos maus-tratos recebidos anteriormente na PIDE, nos idos de 1946, e a 27 de Junho de 1948 foi enterrado no cemitério dos Prazeres, na sequência duma das mais poderosas manifestações anti-fascistas de sempre, e que transformaram o bairro de Campo de Ourique num mar de gente.

O Estado democrático no pós-25 de Abril atribuiu-lhe a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada, a titulo póstumo.

O legado de Bento de Jesus Caraça está hoje bem vivo do nosso Partido. Não só a formação integral do indivíduo, ainda hoje um problema central do nosso tempo, e a escola publica são duas das nossas bandeiras de luta, mas também o é o seu pensamento global de entrega do conhecimento nas mãos dos trabalhadores, e o aprofundamento do papel dos indivíduos na actuação colectiva que plasma a luta de classes no processo histórico, e que o Partido procura conduzir todos os dias. E esta maneira de proceder acompanhar-nos-á para além da vitória final.

Viva o Partido Comunista Português!