Bento de Jesus Caraça

António Armando da Costa na comemoração do 60º aniversário da morte de Bento de Jesus Caraça

Camaradas:

Este ano de 2008 caracteriza-se por duas efemérides trágicas da nossa História: os 60 anos da morte de Bento de Jesus Caraça a 25 de Junho de 1948, e os 50 anos das eleições em que o Fascismo através duma fraude eleitoral que cobriu todo o País, derrotou o então General Humberto Delgado. Encontramo-nos aqui a comemorar a primeira destas efemérides neste Centro de Trabalho Pedro Soares do bairro de Campo de Ourique de Lisboa onde morreu, Centro que estou certo Bento Caraça muito gostaria de ter visitado, para almoçar connosco.

O camarada Bento de Jesus Caraça foi um dos maiores intelectuais portugueses do século XX. A sua acção estende-se pela actividade científica e pedagógica no âmbito da Matemática, pelo seu esforço na divulgação do Conhecimento, e pela sua actividade política no plano teórico e prático. No plano político teórico há a assinalar duas importantes contribuições para o desenvolvimento da teoria do materialismo. São elas a concepção materialista da Matemática; e o papel do indivíduo, enquanto pertença do colectivo, no desenvolvimento da História. No plano político prático foi um dos fundadores do Movimento da Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), que, mais tarde, haveria de dar origens ao Movimento de Unidade Democrática (MUD) e distinguiu-se na sua acção em prol do Socorro Vermelho Internacional.

Nascido a 18 de Abril de 1901, na Rua dos Fidalgos, em Vila Viçosa, numa modesta dependência do Convento das Chagas, onde se alojavam alguns criados da casa de Bragança, Bento de Jesus Caraça era filho de trabalhadores rurais, João António Caraça e Domingas Espadinha. O recém-nascido era tão enfezado que as pessoas, temendo que ele morresse, trataram de o baptizar com urgência. Na falta de melhor nome chamaram-lhe Bento de Jesus, juntando Caraça da parte do pai. Viveu os primeiros cinco anos da sua vida na "herdade da Casa Branca", na freguesia de Montoito, onde aprendeu a ler e escrever com um trabalhador, José Percheiro, que para além das primeiras letras e das primeiras contas, lhe ensinou também o valor humano da solidariedade.

A extraordinária rapidez com que aprendia, impressionou a esposa de Raul de Albuquerque de quem o pai de Bento era feitor, que decidiu tomar a seu cargo a educação do jovem, sem suspeitar que estava a lançar as sementes do saber naquele que viria a ser um dos mais notáveis vultos da ciência e da cultura portuguesas.

O exame de Instrução primária fê-lo em Vila Viçosa em 1911 e depois de passar pelos Liceus de Santarém e Pedro Nunes, entrou em 1918 para o Instituto Superior de Comércio, mais tarde Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) e hoje Instituto Superior de Economia e Gestão, tendo no inicio de dar explicações para poder custear os seus estudos. Porém logo em Novembro de 1919 foi nomeado 2.º assistente do 1.º grupo de cadeiras do ISCEF. Licenciou-se com altas classificações em 1923, tendo chamado a atenção do Professor Aureliano Mira Fernandes que promoveu a sua passagem a 1.º assistente em Dezembro de 1924, e mais tarde à sua nomeação como professor catedrático da 1.ª cadeira (Matemáticas Superiores, Álgebra Superior, Princípios de Análise Infinitesimal e Geometria Analítica) em Dezembro de 1929.

A sua entrada para o PCP não se encontra definida, mas já em 1929 afirmou: creio que a classe proletária está destinada a, num futuro mais ou menos próximo, tomar nas suas mãos a direcção dos destinos do mundo, transformando por completo toda a organização social existente. Em 1931, passou a integrar uma organização do próprio PCP, o NIS ou NTI, Núcleo de Intelectuais Simpatizantes ou Núcleo de Trabalhadores Intelectuais, o que mostra que desde a sua criação, os problemas e preocupações dos intelectuais foram assumidas pelo PCP.

A sua acção científica foi vasta: em 1936 funda o Núcleo de Matemática, Física e Química juntamente com outros recém-doutorados nas áreas da matemática e física; em 1938 com os professores Mira Fernandes e Beirão da Veiga, funda o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, que dirigiu até Outubro de 1946, ano da sua extinção pelo Governo; em 1940 com os professores António Monteiro, Hugo Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar criou a Gazeta de Matemática, onde colaborou activamente, bem como nas. revistas Técnica, Gazeta de Matemática, Seara Nova, Vértice e Revista de Economia.

A sua acção de divulgação científica não tem paralelo. Em 1919 fundou a Universidade Popular Portuguesa integrando o seu Conselho administrativo, e em 1928 a respectiva Presidência, tendo procedido então a uma grande remodelação desta instituição. Em 1941 cria a Biblioteca Cosmos, para edição de livros de divulgação científica e cultural, a qual publicou 114 livros, com uma tiragem global de 793 500 exemplares. Ele entendia que o conhecimento não era privilégio de alguns, mas tinha de ser amplamente disponibilizado às massas populares.

A sua acção em prol do desenvolvimento da teoria do materialismo leva-o a esclarecer o papel do individuo na actuação colectiva visando a libertação da sociedade, nessa conferência admirável de 1933 que é A Formação Integral do Individuo Problema Central do Nosso Tempo, complementada mais tarde pela conferencia Escola Única em 1935, onde se defendiam os conceitos de escola pública universal, gratuita e de qualidade; e a publicar Os conceitos Fundamentais da Matemática, aonde lançou as bases da natureza materialista da Matemática.

Em 1946 o governo fascista pretendeu filiar Portugal na Organização das Nações Unidas. A comissão Central do MUD publicou um documento subscrito por Bento de Jesus Caraça aonde se declarava que Portugal era uma sociedade dominada por um Estado fascista que não podia aspirar a dialogar com as democracias e fazer parte de tal Organização. A ira do fascismo abateu-se sobre todos e Bento Caraça foi preso e submetido a maus-tratos pela PIDE. Foi libertado mas expulso das Universidades Portuguesas como Ruy Luís Gomes e Ferreira de Macedo, e condenado a morrer de fome. Em consequência, O Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia foi sumariamente extinto no mesmo ano, o que teve consequências dramáticas para o desenvolvimento da Matemática em Portugal.

Morreu de ataque cardíaco, induzido pelos maus-tratos recebidos anteriormente na PIDE, nos idos de 1946, e a 27 de Junho de 1948 foi enterrado no cemitério dos Prazeres, na sequência duma das mais poderosas manifestações anti-fascistas de sempre, e que transformaram o bairro de Campo de Ourique num mar de gente.

O Estado democrático no pós-25 de Abril atribuiu-lhe a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada, a titulo póstumo.

O legado de Bento de Jesus Caraça está hoje bem vivo do nosso Partido. Não só a formação integral do indivíduo, ainda hoje um problema central do nosso tempo, e a escola publica são duas das nossas bandeiras de luta, mas também o é o seu pensamento global de entrega do conhecimento nas mãos dos trabalhadores, e o aprofundamento do papel dos indivíduos na actuação colectiva que plasma a luta de classes no processo histórico, e que o Partido procura conduzir todos os dias. E esta maneira de proceder acompanhar-nos-á para além da vitória final.

Viva o Partido Comunista Português!

Bento de Jesus Caraça - O testemunho de Dias Lourenço

No centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça, entrecruzam-se os mais diversos testemunhos, memórias, apreciações. Vêm à tona recordações preciosas de quem com ele chegou a conviver. E é importante relembrar, também desta forma vivida, uma época da nossa história ainda tão próxima e, no entanto, as mais das vezes votada ao esquecimento. Não apenas pela memória. Mas para, recuperando-a, lançar novas pontes para o futuro. De alguma forma, desenterrar as memórias do que foi Bento Caraça para, aprendendo com elas e no quadro da realidade actual, avançar no espírito deste grande humanista.

Aqui damos nota do testemunho de Dias Lourenço, que conheceu, aprendeu e privou com Bento Caraça. Testemunho único, entre muitos outros.

Que tipo de personalidade era Bento de Jesus Caraça?

Estamos hoje a comemorar o centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça. É o centenário de uma grande figura nacional - da ciência, da cultura, da política. Um dos percursores mais destacados do movimento de resistência que nasceu como resposta à ditadura fascista. Como intelectual avançado, progressista, comunista, teve uma acção muito importante, num tempo em que a ditadura fascista se instalou no nosso país. Por tudo isso é uma figura que justamente merece a homenagem, não só do mundo culto português, mas também de todos aqueles que estão interessados no avanço da liberdade, da democracia, do progresso social no nosso país.

Há entretanto uma dimensão da sua personalidade que me parece particularmente importante destacar. Bento de Jesus Caraça foi um grande pedagogo. Deu uma contribuição extraordinária à pedagogia virada para a cultura popular. Procurou sempre que a sua cultura científica fosse como que um degrau para aqueles que não tinham acesso ao ensino superior, e até ao ensino médio, ou mesmo a qualquer forma de ensino. E assim deu uma contribuição impar para elevação cultural dos operários, dos trabalhadores, no seu esforço de autodidactas.

Sendo filho de camponeses, camponeses alentejanos, da zona do latifúndio, da zona do Redondo, onde se situava a parte mais concentrada do latifundismo, sempre teve orgulho de afirmar as suas origens de camponês, as suas origens de classe.

Em 31/32, já então como professor universitário, Bento de Jesus Caraça começa a desenvolver uma actividade múltipla, ligada também ao movimento operário de então.

Que actividade desenvolve, nessa altura, em ligação com o movimento operário?

Já como professor, é convidado por Bento Gonçalves para dar aulas em cursos de aperfeiçoamento.

Eram cursos organizados pelo movimento sindical, antes da fascização dos sindicatos, numa altura em que a ditadura fascista já tinha triunfado e, ao movimento sindical, se colocavam tarefas de sobrevivência.

O fascismo iria depois pôr fim, com a Constituição de 33, aos sindicatos independentes. Em 1 de Janeiro de 34, os velhos sindicatos acabaram. Só podiam continuar como sindicatos nacionais, riscando do seu estatuto a luta de classes.

É nesta fase difícil que os sindicatos apostam no desenvolvimento de uma certa acção cultural. Era uma forma de encontrar terrenos de encontro, de debate, de desenvolvimento cultural. Neste início dos anos 30, um dos grandes sindicatos da classe operária portuguesa era o dos arsenalistas da Marinha, em Lisboa, em frente da Câmara. Este sindicato teve um papel muito importante na tomada de consciência do movimento operário. Bento Gonçalves, como torneiro do Arsenal da Marinha, participava activamente no trabalho desenvolvido por este sindicato. É em ligação com este trabalho que Bento Gonçalves entra em contacto com o professor Bento de Jesus Caraça e o convida a dar lições para os cursos de aperfeiçoamento.

Em que consistiam esses cursos de aperfeiçoamento?

A experiência que tenho é no sindicato de Vila Franca. O nosso curso de aperfeiçoamento o que era?

Ensinavam-se disciplinas como matemática, francês, gramática, português. Eu até era professor de esperanto...

O objectivo era também criar uma base de atracção, sobretudo para os trabalhadores jovens, mulheres e homens. Elevar a consciência política dos trabalhadores dessa época. Por exemplo, quando se dava filosofia, falava-se em Marx, em Lénine, nas grandes figuras do movimento operário, nas teorias revolucionárias da época, na história revolucionária do mundo. Tentava-se criar uma base de cultura, política também, filosófica, com os trabalhadores que participavam nesses cursos de aperfeiçoamento.

Estava-se no início dos anos 30 e importa não esquecer que é nessa altura que se inicia a feroz repressão fascista.

É para um leccionar num destes cursos de aperfeiçoamento, do sindicato dos arsenalistas da Marinha, que Bento Gonçalves convida Bento de Jesus Caraça. E é então, e através de Bento Gonçalves, que se cria a base de relação política de Bento de Jesus Caraça com o PCP.

Eu viria a conhecê-lo mais tarde. Por feliz iniciativa do meu pai, presidente do Sindicato de Vila Franca, e que sempre teve a preocupação de interessar os filhos pela cultura e pela política, vim para Lisboa, frequentar o curso industrial. Comecei então a tomar contacto com a juventude comunista. E é esse contacto que me leva depois a matricular-me na Universidade Popular, então muito conhecida entre os jovens operários da região de Lisboa.

Bento de Jesus Caraça era um dos professores da Universidade, com outras destacadas figuras da cultura portuguesa. Mais tarde ascendeu à direcção da Universidade Popular.

E as lições como eram? Eram na base de uma intervenção do mestre, para abrir ao debate. Havia lá professores como Agostinho da Silva, Diogo de Macedo, Barbosa de Magalhães.

Em 42/43, a Universidade Popular foi encerrada pelo fascismo. Mas entretanto muito trabalho tinha sido feito.

Ele foi meu professor de matemática. Sabe-se como os jovens estudantes em geral têm horror à matemática. Então como hoje. Mas o professor Bento de Jesus Caraça sabia ensinar os alunos a terem amor à matemática, a compreenderem a sua importância como instrumento para uma rápida compreensão e intervenção nos problemas da vida. Ensinava a matemática começando pelas coisas mais atraentes para os alunos. Coisas que lhes dissessem algo. Foi um grande pedagogo.

Cursos de aperfeiçoamento. Universidade Popular. No fundo, estamos a falar também de formas de resistência ao fascismo. Algumas das muitas em que Bento Caraça participou. Queres referir outros exemplos?

Há muitos outros exemplos. A participação no jornal "O Diabo". Os passeios no Tejo.

Nós, os jovens do movimento progressista, do movimento comunista da época, apostávamos então em criar uma base de intervenção na vida cultural e política. Foram-se criando núcleos e é nessa base que se organizam os passeios no Tejo, de barco, em que participavam, em média, 30 a 40 pessoas, intelectuais, trabalhadores como eu, e outros. Bento de Jesus Caraça estava presente em todas estas iniciativas.

Estes passeios de barco, que tiveram início por volta de 1933, foram-se organizando até 41.

Reuníamos ali numa zona arborizada perto de Azambuja. E aí fazíamos o piquenique - um pretexto para o convívio e o debate. Participavam também esperantistas. E jovens de outras organizações. Havia, por exemplo, os Naturistas - que resolveram avançar com um movimento naturista que o fascismo não se atrevia a fechar.

Chegámos a fazer, em Vila Franca, grandes convívios, com cerca de 300 participantes, em particular jovens intelectuais ou com preocupações culturais.

Este período corresponde a uma fase em que, face às manobras de Salazar, o movimento democrático, principalmente com a actividade mais dinâmica dos comunistas, tenta organizar-se no sentido de arrancar as liberdades mínimas. De aproveitar as mínimas possibilidades legais - da legalidade colecte de forças do fascismo. O que não era nada fácil, com a repressão. E com a censura.

Já que estamos a falar dos muitos obstáculos que então era preciso ultrapassar, queres falar um pouco dessa grande barreira que era a censura?

Todas as formas de actuação e resistência anti-fascista tinham que passar várias barreira - a barreira policial e a barreira da censura. Como vencer a intervenção da censura, que era feroz na época?

Tínhamos que encontrar as formas de vencer esta barreira. De fazer passar a mensagem.

Bento de Jesus Caraça e toda a nossa intelectualidade mais destacada teve que enfrentar essa outra arma poderosa do fascismo, que era a censura. E que era um obstáculo a que pudesse exercer um papel fundamental no debate de ideias, na cultura. Havia jornais que eram impedidos de sair sem alterarem um ou outro parágrafo. O lápis azul da censura era um inimigo terrível, na difusão das ideias, da cultura, da informação. Havia mesmo comissões distritais de censura, comissões para o teatro, comissões para a imprensa, etc.

Em termos literários, a acção da censura é impressionante. Foram apreendidos três mil e trezentos e cinco livros nacionais e estrangeiros (trezentos e vinte e dois portugueses). Escritores de uma grande projecção tiveram dezenas de livros proibidos e apreendidos. Oito jornais estrangeiros estavam impedidos de entrar em Portugal. Um dos atingidos, de entre as publicações nacionais, foi o jornal "República", que teve um papel muito importante na informação na época.

E como é que se conseguia, de alguma forma, tornar essa situação?

Com a participação em publicações como "O Diabo", por exemplo.

"O Diabo" era um jornal anti-fascista, criado em 34. Teve directores como Quintanilha, Ferreira de Castro. Foi entretanto o seu administrador, o Horácio Cunha, que alargou o âmbito de acção desta publicação. Era um homem que queria abrir portas. E abriu as portas ao jovens. E os jovens entraram. Entre eles Álvaro Cunhal.

Bento de Jesus Caraça foi um dos grandes colaboradores de "O Diabo". Convivia com isto tudo. E estes jovens de "O Diabo" - eram o diabo em figura e gente... Nós procurávamos penetrar em todos os terrenos em que era possível intervir, debater os grandes problemas da época. Fui colaborador de "O Diabo", entre grandes nomes da intelectualidade da altura. E costumo dizer que sou "um pigmeu entre gigantes".

Não esquecer nunca que esta foi a época do triunfo do nazismo, do triunfo da República em Espanha, do triunfo da Frente Popular em Espanha e França. O começo e o fim da guerra civil espanhola. É um período extremamente agitado da vida mundial. Que se reflectia muito profundamente em Portugal.
Como se compreende era uma época de acesas polémicas.

Este é o pano de fundo em que Bento de Jesus Caraça virá a assumir uma outra grande realização - a colecção "Cosmos".

Como surgiu a ideia da colecção "Cosmos"?

Nesta época, de grande repressão, os presos políticos iam directamente para Angra do Heroísmo.. De Angra iam depois para o Tarrafal uns, outros ficavam lá, outros regressavam. Mas Angra era, em geral, o porto de chegada dos presos políticos que iam deportados.

Ora bem, um dos presos políticos deportados foi o Manuel Rodrigues, que era comunista, e viria a ser o principal detentor do capital inicial da editora "Cosmos". Foi ele mesmo que me contou esta história.

Em Angra, Manuel Rodrigues encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma questão: "Ó Bento - eu tenho umas coroas e não sei que lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer maneira... Tens alguma ideia da utilidade possam ir a ter?".

E o Bento Gonçalves respondeu: "Sim. Tu podes avançar com uma editora de livros virados para a cultura popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E podes fazer uma coisa com grande expansão - cultural e revolucionária. E olha - a pessoa indicada para dirigir isso é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele - dizes que vais da minha parte - e pões-lhe esse problema".

Bento de Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colecção. Foi este o ponto de partida para a criação da "Cosmos".

Qual era o objectivo da "Cosmos"? Era ser uma editora cultural, com caracter enciclopédico. O que bento de Jesus Caraça concebeu foi uma enciclopédia virada para a cultura popular. A colecção englobava a cultura nas suas diversas expressões, com a edição de livros de autores estrangeiros e portugueses, livros que focassem de uma forma mais directa os diferentes sectores de conhecimento, da actividade cultural, científica. Todos os 129 volumes publicados pela Cosmos - um milhão de exemplares - se integram nesta perspectiva.

A "Cosmos" foi uma outra grande criação desta personalidade multifacetada que era Bento de Jesus Caraça.

Que outras facetas da sua personalidade gostarias de realçar?

Penso que há uma parte da personalidade de Bento Caraça que não está a ter o necessário relevo.

Claro que merece todo o relevo o papel que ele teve na vida cultural e científica. Mas penso que a forma como se tem vindo a falar da sua actividade democrática, tem sido um pouco limitada. E essa actividade teve uma expressão muito vasta. O nome de Bento de Jesus Caraça está ligado a toda a actividade antifascista e democrática desenvolvida na época. Nomeadamente quando, com o fim da guerra e a derrota do nazismo, Salazar se vê obrigado a manobrar, a designar o fascismo português "democracia orgânica", e o movimento democrático tenta afirmar-se, aparecer à luz do dia, participar na vida política.

Bento de Jesus Caraça destaca-se desde logo nesta acção do movimento democrático, que então tentava forçar formas de acção mais abertas para poder avançar.

Na análise dos acontecimentos desta época é preciso ter sempre presente que não era possível desenvolver uma actividade política contra o fascismo, sem ter estruturas clandestinas, ilegais. Quer dizer - todos esses movimentos legais que apareceram na época tiveram, na sua criação e dinamização, na sua dinâmica até, a acção dos movimentos que estavam na clandestinidade. Em particular do Partido Comunista Português, da juventude comunista.

Em 1943 é criado um organismo clandestino, com uma grande força no movimento democrático em Portugal - o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista - o MUNAF. Este movimento englobou e trouxe ao seu seio os democratas mais combativos, aqueles que se dispunham mais a assumir o risco da acção política na época. Principalmente comunistas.

Este movimento era encabeçado pelo Conselho de Unidade Nacional, dirigido pelo general Norton de Matos, e era constituído por núcleos de anti-fascistas destacados, combativos.

O Bento de Jesus Caraça pertenceu ao Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista. Um facto que tem sido um pouco apagado..

O Conselho de Unidade Nacional Anti-Fascista vivia secretamente, com rígidas formas de secretismo.

E naturalmente cada um só sabia aquilo de que precisava de saber. Por isso mesmo, muitos não sabiam que o Bento de Jesus Caraça, como outros, era membro do PCP, embora não estivesse no Conselho como membro do PCP. Mário Soares, cujo liberalismo relativamente à cronologia e verdade da história é conhecida, veio nestes dias à televisão pôr em causa a qualidade de comunista de Bento de Jesus Caraça. Mas a verdade é que Bento Caraça foi militante do PCP.

Ao Conselho, o Bento de Jesus Caraça deu uma contribuição muito grande, que muitos poucos sabem.

Foi ele quem elaborou o projecto de programa para o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista.

Que naturalmente foi depois submetido à discussão no Conselho, em que houve opiniões diversas e o programa saiu com a recolha de todas essas opiniões. Mas Bento de Jesus Caraça teve a confiança de todos para fazer um documento destes.

E das suas características humanas, queres dizer alguma coisa, contar algum episódio que tenhas vivido com ele?

Aqui vai um episódio, que me parece de todo o interesse.

Numa reunião do Conselho Nacional, estavam presentes o Dr. Nuno Simões, que era advogado de Lisboa, e um médico do Porto, o Dr. Veiga Pires. Como democratas, eles eram muito amigos os dois. A certa altura o Nuno Simões, que era assim "meia bola e força", faz considerações desprimorosas para o povo do Porto. E o Veiga Pires interveio muito chocado e diz que ali está a ser insultado "o heróico povo do Porto". Começam a discutir os dois e desafiam-se para a pancada, quando acabasse a reunião.

Entretanto a reunião teve um intervalo para o almoço e eu agarrei o professor Azevedo Gomes e o Bento de Jesus Caraça e disse-lhes: "Meus amigos, não devemos deixar que estes dois homens saiam daqui inimigos". Eles foram falar-lhes e conseguiram. Saíram dali amigos.

Bento de Jesus Caraça tinha essa grande outra particularidade - a capacidade de congregar pessoas de opiniões diferentes, um grande poder de ganhar para uma ideia comum os que tinham ideias diferentes entre eles. Era um homem com uma grande abertura. Um grande prestígio. E uma forma de falar politicamente elevada.

Este caso é significativo também do espírito de Bento de Jesus Caraça.

Bento de Jesus Caraça foi, como é conhecido, alvo da repressão fascista. De perseguições que iriam mesmo acelerar a sua morte. Acompanhaste este processo?

Sim. A certa altura desencadeia-se a repressão fascista contra os intelectuais, contra o professorado, até pelo seu apoio às lutas estudantis. E naturalmente pela sua participação no movimento antifascista.

Esta onda repressiva corresponde também a uma fase em que - com base no trabalho dos movimentos antifascistas ilegais - se tinha conseguido organizar um movimento legal - o MUD.

É em 1945 que é constituído o MUD e o MUD juvenil. E começam a ser criadas outras organizações - o movimento para a paz, o movimento das mulheres.

Bento de Jesus Caraça, foi um dos dirigentes do MUD, um dos seus percursores.

E, nesta qualidade, começa então a ter que dar a cara, pelo que cai sob a alçada da polícia. A primeira grande ofensiva é a de 46, em que um grande núcleo de professores, dos mais destacados do ensino universitário, são presos e, grande parte deles, expulsos do ensino. Como foi o caso de Bento de Jesus Caraça.

Já então ele estava gravemente doente. E a prisão foi um dos factores que mais contribuiu para a sua morte.

Tive contacto com ele praticamente até ao último minuto da sua vida. Fui a sua casa, em Campo de Ourique, no próprio dia da sua morte. Entro e vejo a casa cheia de gente consternada. Ele estava na agonia. Como eu estava então na clandestinidade, tive que me vir embora.

Em síntese, que te parece mais importante dizer do que foi a vida e a personalidade de Bento de Jesus Caraça?

Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável. Um homem de um grande saber e de uma grande modéstia. E, por outro lado, com um grande sentido humanístico. Ele era de uma humanismo que ressaltava na sua personalidade. E uma pessoa de diálogo.

Ele foi um dos combatentes mais activos pela paz, pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo, pela abolição da exploração do homem pelo homem. Um combatente denodado, decidido.
Penso que, quando hoje, no centenário deste homem, se está a exaltar, e deve ser exaltado, a sua personalidade de cientista, de pedagogo, se deve também necessariamente dar relevo à sua personalidade política, ao que ele foi, em termos políticos, nas épocas duras do fascismo, na luta contra a ditadura fascista. Isso também é importante dizer.

Bento de Jesus Caraça, como militante político

Bento de Jesus Caraça
como militante político

Alberto Vilaça

Escritor. Membro da Direcção da Organização Regional de Coimbra

Bento de Jesus Caraça, um homem de inteligência superior, foi militante de muitas causas.

Matemático ilustre, notável cultor, apaixonado professor e grande divulgador dessa ciência, faz lembrar um outro para cujo drama ele tão bem soube sensibilizar-nos, Galileo Galilei, perseguido pela Inquisição desde que, do púlpito de uma igreja florentina, um frade dominicano de nome Caccini acusou as matemáticas de serem uma “invenção diabólica”.

Não seria este o pensamento de Salazar, mas certo é que Caraça não se ficou por elas como ciência pura. Bem pelo contrário, cuidou da sua correlação dinâmica com os problemas humanos concretos, estudando e ensinando as suas raízes sócio-económicas, as vidas e posturas cívicas de alguns dos seus maiores criadores e de outras grandes figuras da Humanidade, tal como a sua aplicação, através da economia, à equação e solução de múltiplas carências dos homens, intervindo também com enorme relevância, por essa e por várias outras formas, nas inerentes lutas políticas, nas mais gerais dos povos e em particular nas dos portugueses. Forjando-se enfim como um intelectual de “novo tipo” profundamente ligado às massas populares e aos seus anseios.

Bem se pode assim dizer que se tornou também “diabólico” aos olhos do fascismo e que isso lhe valeu as mais variadas perseguições, com silenciamentos, um processo disciplinar e outros judiciais, prisões, a expulsão da cátedra, dificuldades económicas e angústias, o agravamento de antiga doença e uma morte prematura. Tudo por força de uma intensa e permanente militância cujos resultados e exemplo nos legou, apesar de todas essas perseguições, prolongadas aliás até para além da morte e que fizeram com que, poucos dias depois desta, o Avante! de Julho de 1948 proclamasse: “Até à morte Bento Caraça foi perseguido! Mas até à morte Bento Caraça lutou pelo bem do povo e de Portugal!”

Sem conhecida actividade directamente política nos primeiros anos da juventude, logo cedo porém se destacou com apreciados dotes de jovial e contagiante capacidade de direcção, numa militância cultural e cívica que, embora sem aquela incidência específica mas por sistemáticas posições racionalistas e progressivamente inspiradas pelo materialismo dialéctico, constituíria base fundamental para a formação das válidas mentalidades de muitos intervenientes nas próprias actividades políticas de carácter democrático - dele mesmo e de outros.

Entretanto, e naturalmente, iria construindo a sua pessoal formação teórica marxista, interessado pelo leninismo e dando os primeiros passos na luta contra a Ditadura Militar fascista instalada desde 1926.

Nascido num meio pobre, de operários agrícolas alentejanos, contactando depois e de perto com os meios trabalhadores em geral desde 1919, através da Universidade Popular Portuguesa, e anos após mesmo com o operariado industrial de Lisboa, Barreiro, Seixal e Setúbal, veio inclusive e em data não clarificada a conhecer pessoalmente Bento Gonçalves e outros dirigentes comunistas.

Marcado sem dúvida pelas suas origens de classe e também pelo convívio com as classes trabalhadoras na década de Vinte, em especial nos últimos anos desta, não surpreende que, já em 1929, tenha anunciado o seu combate ao “sistema capitalista”, escrevendo e afirmando mesmo em público: “creio que a classe proletária está destinada a, num futuro mais ou menos próximo, tomar nas suas mãos a direcção dos destinos do mundo, transformando por completo toda a organização social existente”.

E também nunca mais deixou de participar na batalha ideológica com uma peculiar e já aludida militância por via cultural e teórica que necessariamente produzia semelhantes efeitos políticos nas consciências, mas cujas abundância e riqueza não se inserem na finalidade específica destas linhas.

Entretanto passara, em 1931, a integrar uma organização do próprio PCP - o NIS ou NTI, Núcleo de Intelectuais Simpatizantes ou Núcleo de Trabalhadores Intelectuais.

Entre outros objectivos, nomeadamente estudos das questões agrária, colonial, militar e outras, propunha-se este organismo a posterior distribuição dos seus membros por células adequadas e ainda fomentar o estudo do leninismo e a criação do Grémio dos Trabalhadores Intelectuais, um “sindicato” que aglutinaria legalmente os vários ramos de profissionais liberais.

Bento de Jesus Caraça aparece não só então mas de seguida e até falecer em renovados contactos partidários, numa inequívoca qualidade de membro do Partido, como em diferentes datas evidenciam vários documentos e diversos testemunhos directos.

São igualmente conhecidos muitos dos intercâmbios intelectuais e publicações marxistas e de esquerda a que teve acesso nos anos Trinta. Mas bem interessante seria fazer um outro estudo: como se fez, com que meios se fez a sua própria formação teórica de marxista, aberto ao leninismo, e de militante de um partido com essas matrizes?

Com as referidas marcas sociológicas, sem dúvida sentindo também o impacto da revolução soviética, que livros e revistas leu, em especial nos anos Vinte e até antes? Anotou-os, e como?

Há que vasculhar, passe o termo, a sua biblioteca não meramente profissional, as notas que possa ter feito aos seus livros, os apontamentos que porventura terá tirado, eventualmente e se aí indicadas as datas de aquisição e leitura.

Por exemplo e por ocasional informação colhida em conversa com seu filho, detentor de todos esses livros, posso afirmar que um deles, e que tem notas à margem pelo punho de Bento Caraça, é a Dialéctica da Natureza, de Engels. Como se sabe, trata-se de um livro fundamental para a visão materialista e dialéctica do mundo, da ciência e do seu próprio desenvolvimento, com realce para a história do conhecimento científico - aspectos que o anotador tanto cultivou - e cujas revelação e publicação integrais só vieram a ocorrer precisamente em 1925 e a partir da URSS.

Quantos mais não haverá talvez com idênticas fontes de informação?

Curioso objecto de estudo detalhado, pois só há curtas referências, seria ainda o das organizaçoes políticas antifascistas a que esteve ligado, em especial as primeiras e mais efémeras. Mas talvez não haja muitos elementos concretos a tal respeito e se verifique até uma ou outra repetição (acaso com hipotéticas designações diferentes) quanto às mais antigas de que há notícia. De um modo ou de outro, porém, impõe-se tentar essa investigação sistemática.

Num sucinto inventário, podem entretanto apontar-se numerosos movimentos e organizações - bem mais de uma vintena, de carácter antifascista e democrático, de luta pela Paz, de solidariedade e apoio humanitários a prisioneiros dos campos de concentração nazis e a lutadores antifascistas foragidos - aos quais o insigne intelectual e militante comunista pertenceu ou deu apoio, ou com que de algum modo colaborou, ou até e tão só (mas relevantemente) incentivou e fomentou.

Ei-los: ABC, Liga Antifascista, União Antifascista, Acção Antifascista, Associação Pró-Pátria, o já falado NIS ou NTI, outras possíveis e inidentificadas estruturas posteriores do PCP, Liga dos Amigos da URSS, SVI (Socorro Vermelho Internacional), Movimento Amsterdam-Pleyel, Comité Mundial contra a Guerra e o Fascismo, LCGF (Liga Contra a Guerra e o Fascismo), FPP (Frente Popular Portuguesa), BAAF (Bloco Académico Antifascista), Exiled Writers Committee, American Commitee to Save Refuggees, Unitarian Comittee, Associação Feminina Portuguesa para a Paz, MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista), MUD (Movimento de Unidade Democrática) e Candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República.

Quanto ao PCP, será de acrescentar que as expressas ligações orgânicas de Caraça passararm nomeadamente por dirigentes como José de Sousa, Manuel Alpedrinha, Pavel (Francisco Paula de Oliveira), Júlio Fogaça, Álvaro Cunhal e António Dias Lourenço, senão também o próprio Bento Gonçalves e outros.

Numerosos foram, por outro lado, os destacados intelectuais e outros antifascistas portugueses, bem como intelectuais de grandes envergadura e projecção internacionais - como pelo menos, quanto a estes últimos, Romain Rolland e Henri Barbusse - com os quais colaborou no âmbito dos mencionados movimentos e organizações.

Quanto à sua acção nuns e noutras, além naturalmente da partidária, importa em especial destacar, em 1934-36, a LCGF (de que até se faziam reuniões disfarçadamente no decurso de jogos de bilhar num café da Baixa lisboeta e de que terão existido, entre outros, um Comité Central e um Comité Regional de Lisboa) e a FPP (a cujo Directório pertencia como representante e dirigente da primeira); e sobretudo, mais tarde, o MUNAF e o MUD, tendo ambos estes organização em vários pontos do país - tal como as duas anteriores, mas muito mais extensiva.

Como é bem sabido, o primeiro destes dois últimos, de carácter clandestino e criado a partir de 1943 por impulso do PCP, ligava unitariamente importantes e diversos sectores democráticos, tendo sido decisivo para o seu arranque e congregação o papel de Caraça, que também ficou a pertencer aos respectivos Conselho Nacional e Comité Executivo.

Igualmente conhecida e importante é a actividade do MUD, com uma existência semi-legal em 1945-48 e em que o papel aglutinador e dinamizador de Caraça foi do mesmo modo essencial, destacando-se como vice-presidente e realizando-se até muitas das reuniões na sua própria residência.

Não cabe obviamente nem é possível desenvolver aqui toda a actividade de tais organizações e movimentos ou sequer a do prestigiado militante comunista no seu seio.

Será contudo de anotar, como índices do seu papel de proa na luta antifascista e embora sem os enumerar um a um, os discursos e conferências que fez, os artigos e entrevistas que publicou, as representações ao presidente da República e a outras entidades, bem como os documentos e manifestos de vários daqueles movimentos (muitos deles identificados e decerto beneficiando do seu contributo na respectiva elaboração), que subscreveu juntamente com os demais democratas pertencentes às comissões signatárias, e até muitas cartas públicas e privadas.

Entre os de responsbilidade colegial, são vários os do MUD e em especial o da proclamação programática do MUNAF, cujo texto inicial redigiu e naturalmente foi também enriquecido pela discussão colectiva. E em particular ainda os documentos que elaborou em representação do MUD, nessa qualidade os publicitando mas em seu próprio nome: Aspectos do Problema Cultural Português e A Posição do MUD no Momento Político Presente.

Por outro lado - e abstraindo aqui das áreas profissional e universitária, e até das propriamente ideológica e filosófica - enunciam-se mesmo alguns dos vectores fundamentais das suas reiteradas tomadas de posição, tanto cívicas como caracterizadamente políticas, todavia aqui não especificáveis ou descritíveis em concreto: defesa e múltiplas e diversificadas práticas de educação popular; formação cultural e informação enciclopédica, mormente através da Universidade Popular e da Biblioteca Cosmos; defesa da Escola Única, denúncia e combate aos métodos e directrizes obscurantistas do chamado Estado Novo; defesa da Paz e luta contra a guerra; indefectível unidade democrática, na luta pela Democracia e pelo Socialismo; reivindicação das liberdades de expressão, associação e outras, como a da formação de partidos políticos e eleições livres; denúncia e protesto contra agressões e prisões de operários, estudantes e outros cidadãos pela polícia política, e em especial contra a existência do campo de concentração do Tarrafal e deportações para lá; posicionamentos por medidas de desenvolvimento da produção e da economia nacionais, assim como do trabalho e dos diversos direitos laborais; denúncia da inadequação do então Estado antidemocrático português às exigências democráticas da participação na ONU; defesa da soberania nacional, numa linha independente de colaboração internacional com os países democráticos e todos os povos, mas contra a política de blocos; etc..

Ao mesmo tempo e sempre, ligado também e por várias formas e actuações aos meios operários e aos meios intelectuais progressistas: desde os sindicatos livres anteriores à fascização de 1933 até outras organizações como a Voz do Operário e a Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal; desde a frequência das redacções de revistas como O Diabo e a Seara Nova até aos “Passeios no Tejo”.

É necessariamente redutor falar apenas de um dos aspectos da personalidade e da actividade de Bento de Jesus Caraça, de mais a mais do modo abreviado que aqui se impõe e tão amplas e abrangentes elas são.

O seu pensamento e a sua acção desenvolveram-se em tão multifacetados campos e sensibilizam tão diferenciados sectores humanistas, científicos, culturais, cívicos e mesmo políticos que é com uma grande verdade que a primeira figura institucional da República Portuguesa afirmou recentemente ter Bento de Jesus Caraça uma “dimensão universal” e por isso mesmo “não ser apropriável por ninguém”.

Resta acrescentar-lhe a também grande verdade de que igualmente não é desapropriável de nenhuma das vertentes da sua rica identidade.

Entre estas, e porque a propósito no que toca ao tema específico, a da sua militância política e muito em particular a da sua militância e do seu ideal comunistas, indissociáveis aliás de tudo o mais que ele é e fez.

E falando-se de militância antifascista - que foi muito a de Caraça ao lutar pela paz e pela soberania nacional, pelas liberdades e pela democracia, pela emancipação económica e cultural do povo - ocorre ainda recordar alguns factos paradigmáticos e recentes a que há longo tempo ele dera resposta antecipada suscitando agora umas considerações finais.

É que se ouvem por vezes insólitas vozes, vindas inclusive de três diferentes quadrantes do espectro partidário português. Só destes, e um de cada, aqui vão os seguintes exemplos.

Há quem tenha afirmado não ser antifascista porque era ainda criança ao tempo da revolução. E até quem tenha dito que não aprovaria um certo monumento à resistência e ao 25 de Abril se se chamasse "contra o fascismo" pois nunca votaria contra qualquer ideologia. Tal como alguém - reconhecendo embora faltarem valores à democracia que temos - tentou mesmo justificar este facto por ser um "traço comum" às demais democracias existentes no mundo e resultar da sociedade de consumo.

É como se qualquer de nós dissesse com igual cinismo que não condena o esclavagismo porque não é do tempo da sua existência em Portugal!

É como se se fingisse que o que está em causa, mais que uma ideologia (aliás e em si mesma antidemocrática e repulsiva), é um regime político que durante quase meio século oprimiu violentamente o povo português. É como se se ignorasse que o primeiro parágrafo do preâmbulo da nossa Constituição regista expressamente que o acto libertador do MFA, "coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista".

A unidade democrática - justa, necessária e sempre preconizada por Caraça - é e quer-se pluralista. Porque mais amplo, plural deve ser o quadro partidário constitucional.Saibamos porém livrar-nos do falso “pluralismo” de gente tão neutra ...

O fascismo não está por aí a bater-nos à porta, mas os interesses e as forças económico-sociais que lhe serviram de lastro - mais que o mero consumismo (que aliás manipulam) e tal como no resto do mundo capitalista, “democrático” ou não - permanecem vivos. E, com essa ou com outras formas ditatoriais e repressivas, não deixariam de tentar continuar ou agravar o caminho do domínio e da exploração dos cidadãos em geral e das classes trabalhadoras em especial, bem como de esmagar os seus valores, se e quando as vias da democracia vigente deixassem de lho permitir tanto quanto lhes convém.

A militância democrática continua pois a passar pelo combate que tal impeça, lutando hoje mesmo tanto contra esses domínio e exploração como pela crescente realização destes valores.

É assim de parafrasear Bento de Jesus Caraça ao falar dos diferentes tipos de humanismo que distinguia, pois é actualíssimo relembrar que cada homem “vale tanto pelo que é como por aquilo contra que é”.

De um outro modo: somos e valemos também por aquilo contra que lutamos, contra o fascismo clássico ontem, contra qualquer dos seus sucedâneos hoje e amanhã, contra o poder e a exploração capitalistas sempre, ainda que por vezes se apresentem a coberto de linguagem ou fórmulas aparentemente democráticas, mas de real conteúdo oposto.

«O Militante» - N.º 253 - Julho/Agosto 2001

Bento de Jesus Caraça, o matemático e lutador

Bento de Jesus Caraça
o matemático e lutador

Jorge Resende
Professor da Universidade de Lisboa

Há homens que pela sua acção, interpretando os anseios profundos de libertação das massas populares, se projectam muito para além da sua existência. Assim é Bento de Jesus Caraça. Um pensamento que não passe à acção ou é aborto ou é traição, disse ele um dia. E a vida deste homem forte, de uma coerência harmoniosa, foi a prática desta ideia.

Aspectos centrais da biografia de Bento de Jesus Caraça são o de ser oriundo de uma família pobre de trabalhadores rurais, de ter aprendido as primeiras letras com um trabalhador e de ter sido ajudado nos seus estudos pela patroa dos seus pais.

O simples facto de ter chegado a professor universitário de matemática, com elevadas capacidades científicas e pedagógicas, conduz-nos a uma mesma perturbação que vem desde então, há quase um século, até agora. Na sociedade em que nasceu foi necessário a uma criança muito inteligente ter também muita sorte para poder desenvolver e revelar todas as suas capacidades.

Actualmente, em todo o mundo, uma em cada quatro crianças trabalha. Muitas outras crianças e adolescentes são atirados para a marginalidade mais abjecta, reduzidos a subprodutos iletrados de uma sociedade alienada.

Este é o resultado, no início do século XXI, do triunfo provisório de um capitalismo cínico e brutal.

Quantas inteligências excepcionais se perdem pelo caminho, despojos desta guerra impiedosa?

A dimensão de tal desastre compreende-se melhor ao olharmos para trás imaginando uma História da qual estivesse ausente o filho dos trabalhadores rurais alentejanos. Ou imaginando como seria diferente Portugal se a todas as crianças, ao longo do século XX e agora, fossem dadas as oportunidades que ele teve.

Um traço fundamental da personalidade de Bento de Jesus Caraça consiste em nunca ter esquecido ou atraiçoado as suas origens. Pelo contrário. A sua vida foi uma espécie de devolução generosa como se a posição a que chegou lhe tivesse sido apenas emprestada.

Fez isso de uma forma totalmente consciente, como se torna claro ao ler o seguinte trecho da sua conferência A cultura integral do indivíduo: (…) O trabalho de submissão, de lamber de botas, da parte das chamadas camadas intelectuais, tem sido duma perfeição dificilmente excedível. Digamos, para irmos até ao fim, que os mais excelsos nesses mister são frequentemente aqueles que, partidos das camadas ditas inferiores, se guindaram, umas vezes a pulso, outras em acrobacias de palhaço, a posições que deveriam utilizar para defesa dos bens espirituais e que só usam para traír os seus antigos irmãos no sofrimento. Palavras duras ditas serenamente.

Bento de Jesus Caraça e os seus companheiros de luta viveram um período muito duro da nossa História do século XX. Assistiu à ascenção dos fascitas ao poder em Itália (1925), ao golpe de Estado do 28 de Maio em Portugal (1926), à vitória dos nazis nas eleições na Alemanha (1930), à proclamação da república em Espanha (1931). Daí para diante lutas sangrentas dilaceram toda a Europa, culminando com a segunda grande guerra. A subida de Salazar ao poder, com a criação de todo o seu aparelho repressivo, e a vitória de Franco, ao cabo de três anos de guerra civil, com a complacência das potências ocidentais, são duas peças deste puzzle. A derrota do nazi-fascismo na Alemanha e em Itália em 1945, reforçou a vontade de lutar para que o mesmo pudesse suceder na península. No entanto, o fim da guerra e a segunda metade dos anos quarenta significaram o início do reconhecimento internacional do fascismo ibérico por parte das grandes potências, com particular relevo para os Estados Unidos da América do Norte e o Reino Unido. Em 1949 é fundada a NATO, e Portugal é um dos países aderentes. Assim se fechou o puzzle vergonhoso das cumplicidades internacionais que hoje, tal como ontem, ninguém pode ignorar.

A actividade social e política realiza-a Bento de Jesus Caraça, nos anos 30 e 40, nesse contexto internacional e de ascenso do fascismo português. Ela foi uma das faces visíveis de uma luta mais geral, legal e clandestina, que envolveu muita gente, e que não pode ser compreendida desenquadrada do trabalho colectivo do Partido Comunista Português. No início dos anos 30 faz várias conferências, muito participadas, dirigidas especialmente à juventude, que ainda hoje são editadas e lidas.

No final da sua conferência sobre Galileo Galilei defende que a mensagem que nos é transmitida pela vida do grande cientista de Florença é a seguinte: expulsai os falsos deuses; valorizai o homem, acabando com a projecção abusiva e criminosa do individual sobre o colectivo; humanizai a sociedade!

Quem lê esta frase não pode deixar de pensar que era também a mensagem que Bento de Jesus Caraça nos queria deixar.

Foi com a fundação da Biblioteca Cosmos, em 1941, que a acção cultural de Bento de Jesus Caraça atingiu a sua expressão mais alta. Foi o seu único director até ambos desaparecerem em Junho de 1948.

No que diz respeito à actividade científica, além de algumas publicações dirigidas aos estudantes, Bento de Jesus Caraça escreveu o livro Conceitos Fundamentais da Matemática, uma maravilhosa obra de divulgação, cujos dois primeiros volumes sairam na Biblioteca Cosmos, e que só em 1951 seria publicado na íntegra.

Foi um dos fundadores da Gazeta de Matemática, em 1940.

Foi Presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática no biénio 1943-1944.

Foi um divulgador da Matemática com uma influência só comparável, no século XX, à de Sebastião e Silva.

Bento de Jesus Caraça não foi um investigador, e dificilmente o podia ter sido numa época difícil, de obscurantismo cultural, com outras prioridades, e em que a investigação era praticamente inexistente nas nossas universidades. Mas, pela acção desenvolvida junto das novas gerações de então, a sua influência científica foi muitíssimo para além daquilo que lhe era exigido pela docência universitária.

Em virtude da sua actividade cívica e política, Bento de Jesus Caraça foi demitido em 1946.

Com o fim da guerra tinham-se realizado manifestações de rua por todo o país comemorando a vitória sobre o nazi-fascismo, na sequência das quais fora formado o Movimento de Unidade Democrática (MUD) a cuja Comissão Central pertencia Bento de Jesus Caraça.

Em 1946 o MUD publica o documento O MUD perante a admissão de Portugal na ONU, assinado pela respectiva Comissão Central o que conduz à expulsão da Universidade Técnica de Bento de Jesus Caraça e Mário de Azevedo Gomes por despacho do Ministro da Educação Nacional.

E o que dizia esse documento para provocar uma reacção tão brutal do regime fascista?

Entre outras coisas afirmava a dado passo que quer a admissão (na ONU), contra os princípios da Carta das Nações Unidas, quer a recusa em nome desses princípios, são igualmente vexatórios para o nosso sentimento de portugueses democratas. Os fascistas não suportaram que fossem postos tão frontalmente em causa.

Entre 1946 e 1947 dezenas de professores universitários portugueses foram expulsos, no seguimento destas duas primeiras expulsões.

Muitos rumaram ao exílio, destino que, no mínimo, teria tido Bento de Jesus Caraça, se entretanto não tivesse falecido a 25 de Junho de 1948, com a doença que, sem dúvida, fora agravada pela tensão causada pela perseguição política.

Tem havido muitas tentativas de adulterar o sentido da intervenção cívica e política de Bento de Jesus Caraça. Uma delas consiste em, não negando a sua militância no PCP, de certa forma a diminuir ou, pior ainda, a “desculpar”. Na verdade, as alternativas de militância política postas à disposição desta nova geração dos anos 30, para além do PCP, eram praticamente inexistentes, diz-se num artigo do número de Dezembro de 1998 da revista História, página 32. A verdade é que havia alternativas. Muitos se incorporaram no regime fascista, outros desistiram da luta, outros pertenciam a correntes políticas distintas do PCP. São conhecidas as divergências entre Bento de Jesus Caraça e António Sérgio, estando este num campo diferente daquele na oposição ao fascismo.

Na primeira conferência pública pronunciada por Bento Caraça na Universidade Popular Portuguesa, em 1929, era já visível a inspiração marxista e a opção do seu autor pela utopia comunista, afirma-se uns parágrafos antes no mesmo artigo.

A palavra utopia tem, correntemente, dois significados. Por um lado significa país ideal organizado da melhor forma visando a felicidade de todos (tal como é idealizado e descrito por Thomas More); por outro lado significa quimera, concepção irrealizável.

A verdade é que nenhuma destas ideias corresponde ao pensamento de Bento de Jesus Caraça como se pode reconhecer lendo, por exemplo, A cultura integral do indivíduo, da qual se chama a atenção para o seguinte trecho:

(…) Encarada sob este ângulo, a História da Humanidade aparece-nos como uma gigantesca luta, gigantesca no espaço e no tempo, entre o individual e o colectivo. Luta gigantesca, e trágica, e sangrenta, em que transparece um domínio quase permanente do individual sobre o colectivo e, de longe em longe, um estremecimento do grande corpo mortificado, um movimento de revolta, um triunfo efémero do colectivo, que logo cai sob outro ou o mesmo jugo pela sua incapacidade de se reconhecer e dirigir.

Como alternativa propunha Bento de Jesus Caraça uma luta árdua, tenaz e contínua: Eis a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geração - despertar a alma colectiva das massas.

Não há no seu pensamento e acção quaisquer fantasias ou perseguições de miragens. Bento de Jesus Caraça não lutou por um projecto irrealizável. Lutou por um mundo necessário, mais livre, mais pacífico, mais democrático.

Noutros textos ou intervenções procura-se pintar a figura de Bento de Jesus Caraça com cores mais suaves, para que ele se torne mais aceitável. Mas ainda recentemente (18 de Abril) o Jornal de Letras publicou uma sua carta inédita em que explicitava ao seu correspondente o pensamento exposto n’A cultura integral do indivíduo. Aí afirmava: A estrutura actual da sociedade (economia burguesa capitalista) é já incompatível, por demasiado estreita, com a aplicação em condições de pleno rendimento, da ciência e da técnica ao bem-estar dos homens. (…) Daqui resulta um dilema - a) ou se sacrificam as possibilidades de bem-estar humano à estrutura económica actual, ou b) se sacrifica esta ao bem-estar dos homens.

Já na referida conferência dizia de uma forma clara: A civilização de base capitalista tornou inoperantes os princípios de liberdade individual e de igualdade, para não falar já no da fraternidade que só por sarcasmo se pode pretender que esteja incluído hoje entre as ideias dominantes da governação.

Na realidade, a universalidade de Bento de Jesus Caraça provém do facto de se ter inserido na corrente histórica daqueles homens que, desde que os primeiros escravos se revoltaram contra a opressão, há milénios atrás, deram sentido à sua vida fundindo-a com a luta das massas populares pela sua libertação.

«O Militante» - N.º 253 - Julho/Agosto 2001

Bento de Jesus Caraça, um intelectual militante

Bento de Jesus Caraça
um intelectual militante

Manuel Gusmão


Bento de Jesus Caraça foi um intelectual militante, a vários títulos exemplar, num período histórico marcado por uma grande tensão, urgência e paixão históricas. É o sentido dessa expressão “intelectual militante” que aqui gostaria de ajudar a esclarecer, através da referência a alguns aspectos do trabalho da sua vida, ou seja, do modo como ele trabalhou, fez ou dedicou a sua vida.

Começarei por duas notas sobre questões das quais ele é um caso ou um exemplo e que, ao mesmo tempo, ele próprio formula ou ajuda a compreender.

A 1ª: nascido no Alentejo e de origens populares; por circunstâncias felizes, foi-lhe permitido fazer estudos superiores, tendo-se tornado um cientista e professor universitário. Ora, ele tinha uma consciência lúcida das questões envolvidas nesse percurso. Numa conferência de 1931, “As Universidades populares e a cultura”, ao denunciar que a cultura era o monopólio de um grupo “a classe burguesa - que por virtude da organização social, torna inacessível a sua aquisição à massa geral da humanidade”, Bento de Jesus Caraça responde aos que defendem que “muitas pessoas se elevam do fundo da massa a altas situações sociais” mostrando como esse número é irrisório e que isso significa a perda ou a amputação de “grandes aptidões” que não chegam a poder exprimir-se e realizar-se. Mas ele vai mais longe e acrescenta uma pergunta profundamente reveladora: “quantos desses [que conseguiram ascender socialmente] se conservaram sempre fiéis à sua própria classe e aos seus ideais de emancipação humana e não desertaram ingressando no campo contrário!”. Bento de Jesus Caraça é um daqueles que mantiveram a fidelidade às suas origens populares, e o que dirá a seguir mostra várias coisas: (a) Que o aparelho de poder político e económico e a ideologia das classe dominantes não só produzem aquela amputação, como podem produzir aquele abandono ou essa deserção; (b) Mas mostra também que a fidelidade à classe de origem e aos seus ideais de emancipação não é um efeito automático, implica uma resistência e uma escolha que são seguramente político-ideológicas e, nesse quadro, uma inapagável decisão ética. (c) Ao mostrar que a determinação de classe não actua de forma automática, Bento de Jesus Caraça ajuda simultaneamente a compreender que intelectuais com origens e situações sociais próximas da pequena burguesia urbana ou das camadas intermédias possam abraçar e manter-se fieis aos ideais revolucionários; ajuda a compreender esse fenómeno que caracteriza a história do movimento operário e comunista: o da plena e activa integração no seu seio de intelectuais revolucionários.

A 2ª nota destina-se a referir como essa integração, de que o seu caso é um exemplo, representa um encontro que se dá, no plano da opção política e ideológica, mas também no terreno da cultura ou da democratização da cultura. O movimento operário e comunista, desde muito cedo, manifestaram o desejo e compreenderam a necessidade de se apropriar das mais altas e poderosas criações da cultura (da ciência às artes), socialmente produzida pela humanidade ao longo da sua história, sem que tal história deixe por isso de ser a história da luta de classes. Por seu turno, os intelectuais revolucionários e, em particular, os comunistas sempre tenderam a conceber que os vectores de criação, de descoberta e invenção, que tendencialmente se exprimem na autonomia relativa do seu trabalho, são uma parte do caracter estruturalmente transformador de todo o trabalho humano, e que no seu horizonte de possibilidade, a cultura deve constituir “património, instrumento e actividade de todo o povo” (do actual Programa do PCP, p. 86). Uma parte da obra e do legado político de Bento de Jesus Caraça passa por aí e pode ser ilustrado por um pequeno (?) facto. Manuel Rodrigues Oliveira, membro das Juventudes Comunistas e do Partido desde os anos 20, fundador e proprietário da editora “Cosmos”, contou em várias ocasiões que foi o dirigente operário comunista Bento Gonçalves, na prisão, quem lhe sugeriu o projecto que se viria a tornar na Biblioteca Cosmos - a mais importante acção de divulgação científica e cultural do séc. XX em Portugal - e o nome da pessoa adequada a concebê-lo e dirigi-lo: Bento de Jesus Caraça.

No tempo em que Bento de Jesus Caraça viveu, a intelectualidade era ainda, e designadamente em Portugal, uma pequena elite social, mesmo se já atravessada por diversas contradições de classe e por atitudes e posições política e ideologicamente contraditórias. Entretanto, não deixa de ser significativo que a reorganização de 1940/41 represente e produza uma série de fenómenos articulados entre si: um crescimento e reforço da organização do PCP, da sua capacidade de organizar as massas populares e de as levar à luta, a elevação da sua intervenção não só social mas também política, tornando-se não só um grande partido operário mas um grande partido nacional. É neste quadro que, em conexão com o aumento da influência do PCP entre a classe operária e os trabalhadores em geral, se verifica um crescimento da sua influência na intelectualidade; e é o conjunto desses factores que leva o Partido, através dos seus militantes e da construção da unidade com outros, não só a desempenhar um papel decisivo na luta antifascista, mas a participar fortemente na construção de uma cultura alternativa, de uma cultura que, sendo de resistência, é também projecto de liberdade e de democracia; trabalho efectivo de democratização da cultura e, indissociavelmente, de criação cultural.

Bento de Jesus Caraça foi um intelectual multifacetado, daqueles que encontrou e trabalhou a relação de acção recíproca entre o seu trabalho intelectual, disciplinar ou profissional e essa função intelectual, que tradicionalmente tem significado o desempenho de um papel na formação e intermediação de ideias, valores e sentidos; e que no seu caso se orientou decididamente para a generalização do acesso à cultura como condição e exercício de liberdade, como antecipação de uma comunidade livre e soberana. Cientista, interessado pela filosofia e pela história da ciência, mas também pela divulgação científica e pelas artes; militante da democratização da cultura que foi ao mesmo tempo um militante político, ele foi alguém que procurou activamente construir a unidade das suas facetas enquanto indivíduo concreto, e que tomou partido. Outros falarão nestas páginas da sua militância comunista. Cabem-me algumas palavras mais, não tanto sobre a sua militância cultural, mas sobretudo sobre o modo como pensou e trabalhou a cultura e que está no cerne dessa militância ao mesmo tempo cultural e política.

Na sua justamente famosa conferência “A cultura integral do indivíduo”, mas também em outros textos, Bento de Jesus Caraça dá um exemplo de aguda e activa compreensão e utilização do materialismo histórico e da dialéctica materialista para compreender e ao mesmo tempo encontrar os meios de transformação do seu presente. No seu trabalho, ele encontra a necessidade de pensar historicamente “a época actual”, e de a determinar como época de contradições, e de transição concreta “entre aquilo que desaparece e o que vai nascer”. Algumas das suas caracterizações têm aquele admirável poder de conhecimento, que nos leva a reconhecermos nelas, mesmo se em formas diferentes, algo que une e diferencia a sua e a nossa actualidade. Apenas dois exemplos: “Época singular! Em que podemos assistir às manifestações do mais alto poder criador e do mais persistente esforço de sistematização - Einstein e Broglie - e, paralelamente, à desorganização total da vida económica e à destruição deliberada precisamente daquilo de que a maioria carece”. Ou: “Há alguns séculos, os destinos de um agrupamento social jogavam-se no próprio local em que o agrupamento vivia. Hoje, o futuro de nós, portugueses, joga-se tanto em Portugal, como em Nova York ou nas planícies do norte da China”.

Ao escolher, expressamente, nessa conferência, como ângulo de visão da história da Humanidade e da sua própria época, o da contradição e da luta entre o individual e o colectivo, aquilo que ele efectivamente faz é uma reapresentação da concepção marxista da luta de classes, transpondo-a para um plano que poderíamos designar como o de uma antropologia cultural. Nesse plano, Caraça não perde de vista a radicação ou o peso das determinações materiais, económica e social, e a sua dimensão histórica, mas o que ele procura é pensar uma dialéctica de superação histórica das formas de dominação de classe e “de casta”, pela qual o individual “chegado a um elevado grau de desenvolvimento, se absorverá” no colectivo, e se processará uma “síntese grandiosa do indivíduo e da colectividade”. Caraça procura claramente o específico papel e sentido da cultura nesse processo; e o lugar da responsabilidade do indivíduo, e em particular do intelectual, que se assume como militante da cultura.

Nós comunistas somos muitas vezes acusados de termos uma visão instrumental da cultura. E de facto a cultura é para nós, também, um instrumento - não um ornamento, não a auto-promoção do poder, não a imposição da submissão ou do consentimento, não uma mercadoria -, mas como compete ao partido revolucionário dos trabalhadores portugueses, um instrumento de emancipação. Mas, por outro lado e, no fundo, a acusação é falsa, e duplamente falsa. Primeiro, porque os humanos são também criadores de instrumentos; não há trabalho humano sem a produção e a transformação de instrumentos. Neste sentido, não se trata para nós de “instrumentalizar” a cultura, mas de a trabalhar no sentido da ampliação da humanidade dos humanos. Segundo, porque, desde há muito, consideramos também a cultura como um fim.

Bento de Jesus Caraça disse-o e fez aquilo que disse. Na conferência de 1931, escrevia:

“O aperfeiçoamento constante dos meios de satisfação e desenvolvimento das necessidades [materiais], ideias [de cooperação e objectivos de ordem moral], e sentimentos [do belo], constitui a cultura, que no dizer de Karl Marx «compreende o máximo desenvolvimento das capacidades intelectuais, artísticas e materiais encerradas no homem».

A cultura é assim simultaneamente um meio e um fim.”

O que ele escreveu não é letra morta; ecoa e vive ainda hoje no Programa do PCP que utiliza expressões e ideias que vêm de Bento de Jesus Caraça, no parágrafo de abertura e no parágrafo final do ponto sobre a democracia cultural.

«O Militante» - N.º 253 - Julho/Agosto 2001

Bento Jesus Caraça - Notas Biográficas

Bento de Jesus Caraça, eminente economista, matemático, estatístico e demógrafo foi uma figura relevante da inteligência portuguesa. Sem nunca esquecer as suas origens populares, assumiu-se plenamente como um cidadão íntegro e um militante antifascista extremamente activo.

Foi um dos fundadores do Movimento da Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), que, mais tarde, haveria de dar origens ao Movimento de Unidade Democrática (MUD).

Fundou, juntamente com outros professores, a Gazeta Matemática, em 1940, e, em 1941, a Biblioteca Cosmos, de que foi único director.

No biénio de 1943-44, foi Presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática e Delegado da Sociedade aos Congressos da Associação Luso-Espanhola para o Progresso das Ciências, de 1942 a 1944 e de 1946 a 1948.

Como universalista que foi, não se cingiu à ciência, abarcando nos seus conhecimentos a arte, a literatura e os problemas centrais da vida do homem, em busca de um saber integral.

Nascido a 18 de Abril de 1901, na Rua dos Fidalgos, em Vila Viçosa, numa modesta dependência do Convento das Chagas, onde se alojavam alguns criados da casa de Bragança, Bento de Jesus Caraça era filho de trabalhadores rurais. Viveu os primeiros cinco anos da sua vida na "herdade da Casa Branca", na freguesia de Montoito, onde aprendeu a ler e escrever com um trabalhador, José Percheiro.

Com as primeiras letras e as primeiras contas, aprendeu também o valor humano da solidariedade.

A extraordinária rapidez com que aprendia, impressionou a esposa de Raul de Albuquerque (de quem o pai de Bento era feitor), que decidiu tomar a seu cargo a educação do jovem, sem suspeitar que estava a lançar as sementes do saber naquele que viria a ser um dos mais notáveis vultos da ciência e da cultura portuguesas.

Tendo concluído com distinção o exame de instrução primária em 1911, em Vila Viçosa, Bento Caraça fez depois o curso liceal nos liceus de Santarém e Pedro Nunes, em Lisboa, ingressando, em 1918, no Instituto Superior do Comércio, nome então dado ao actual Instituto 5uperior de Economia e Gestão.

Ao mesmo tempo, dava explicações para poder custear os seus estudos.

Logo em Novembro de 1919 foi nomeado 2.º assistente do 1.º grupo de cadeiras do ISCEF.

Licenciou-se com altas classificações em 1923, passando a 1.º assistente em Dezembro de 1924. Três anos depois, era nomeado professor extraordinário e professor catedrático da 1.ª cadeira (Matemáticas Superiores, Álgebra Superior, Princípios de Análise Infinitesimal e Geometria Analítica) em Dezembro de 1929.

Um Homem como ele, livre, sem fronteiras, companheiro dos oprimidos, não poderia, porém, viver muito tempo com mordaças num regime opressor e ditatorial.

Por isso, o regime fascista não lhe perdoou a inabalável dedicação à causa da classe operária. Constantemente perseguido, nunca abdicou dos seus ideais. Acabou por ser preso pela PIDE e, posteriormente, demitido do seu lugar de professor catedrático do ISCEF em Outubro de 1946

O fascismo era incompatível com um pensamento livre, humanista e solidário. E, assim, até o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia (CEMAE), que ajudara a criar e dirigia desde Janeiro de 1938, acabou por ser sumariamente extinto por decisão ministerial.

Comunista militante, Bento de Jesus Caraça, na sua intervenção cívica e cultural, sublinhou a natureza de classe do fascismo, o papel do Estado na consolidação do poder de uma classe - a grande burguesia -, ao mesmo tempo que esteve com as lutas e as causas dos trabalhadores e do Socialismo.

Foi um internacionalista e defensor da paz. Aliou na sua acção a firmeza das convicções políticas e a atitude militante com a capacidade de promover entendimentos. Foi uma pessoa simples, íntegra, que cultivou a lealdade e a coerência entre palavras e actos. Foi matemático de valor, pedagogo e conferencista incansável, apostando na democratização da cultura como processo inseparável da luta pela transformação da sociedade. Teve um papel destacado na acção da Universidade Popular Portuguesa, de que foi presidente durante anos consecutivos, aí contribuindo para elevar a educação dos trabalhadores e sublinhando a importância das organizações sindicais no processo de libertação dos seus membros através da cultura.

Dos breves 47 anos de vida deste grande cientista e lutador português ficou para a nossa história não apenas o exemplo ímpar da dedicação à causa da liberdade e dignidade humanas, mas também uma vasta e diversificada obra, de que apenas destacamos:
   

Sobre a intervenção do princípio da substituição de infinitésimos no estabelecimento de algumas fórmulas de cálculo diferencial (1929); Sobre a aplicação de um grupo de fórmulas de cálculo das probabilidades na teoria dos seguros de vida (1930); Sobre o Espaço de Capitalização (1948); Interpolação e Integração Numérica (1933); Lições de Álgebra e Análise, em 2 volumes (1940); Cálculo Vectorial (1937); Conceitos Fundamentais de Matemática, em 2 volumes ( 1945); A Cultura Integral do Indivíduo, problema central do nosso tempo ( 1941); Galileo Galilei, valor científico e moral da sua obra (1940); A Arte e a Cultura Popular (1936); Rabindranath Tagore (1939); Algumas reflexões sobre a Arte (1943).

Colaborou também nas revistas Técnica, Gazeta da Matemática, Seara Nova, Vértice e Revista de Economia.

Bento de Jesus Caraça foi um eminente cientista que não se isolou na ciência. Antes se empenhou na luta e se embrenhou na realidade de mangas arregaçadas. Era um homem multifacetado, corajoso, lutador fiel aos seus princípios, solidário, para além do seu tempo.

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Estas notas biográficas foram extraídas da publicação A Cultura Integral do Indivíduo, editada em 1995 pelo pelouro da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, dirigido pelo vereador António Abreu. 

Bento Jesus Caraça - Testemunho de Alvaro Cunhal

Seguem-se alguns excertos de uma entrevista que o camarada Álvaro Cunhal deu ao Avante!, em 22 de Junho de 1995.

Conheci-o nos anos 30. Primeiro na Universidade Popular Portuguesa onde assisti a várias das suas conferências e tive ocasião de falar com ele no quadro de um relacionamento com outros conferencistas. Depois ainda nessa época, em encontros fortuitos. Eu era jovem, mas já então era militante do PCP, da direcção da Juventude Comunista e com intensa actividade no movimento associativo dos estudantes. Apenas para melhor se compreender o meu relacionamento com Bento de Jesus Caraça, lembro que em 1935 passei à clandestinidade e fui a Moscovo, e em 1937 fui preso e estive cerca de um ano na prisão. A relação com B. Caraça teve logo à partida presentes dois pressupostos. Eu via nele um intelectual conhecido e de grande valor considerado como comunista embora então não soubesse se era ou não membro do Partido. E ele via em mim um jovem conhecido como militante comunista já então com certa responsabilidade.

(A Universidade Popular), com a influência qualificada de B. Caraça, tratou-se de uma actividade cultural de grande projecção. O grupo de conferencistas incluía pessoas de valor como Dias Amado, Mário de Castro. Também de meu pai, Avelino Cunhal. Eram pessoas com diferenciadas personalidades individuais mas identificadas no fundamental das suas opções socio-políticas. B. Caraça, cientista, professor, pedagogo, homem de cultura, pronunciava-se contra a cultura como monopólio de uma elite. Explicitava que um sábio pode não ser um homem culto e um homem culto pode não ser sábio. A cultura deveria ser um valor e um bem do povo. Daí a defesa da democratização da cultura como elemento de liberdade do ser humano e da democracia política.

A cultura exige conhecimento e o povo deve ter acesso à aquisição do conhecimento. É de lembrar a ideia sublinhada por B. Caraça de que, para tal, o problema económico é aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. A actividade cultural de B. Caraça, como professor, como conferencista, como ensaísta, como orientador de actividades editoriais, é inseparável das suas concepções acerca da sociedade existente, da cultura, da democracia, dos valores político-éticos, do ideal de uma transformação profunda da sociedade de assumido conteúdo humanista.

Ele foi o grande orientador, animador e dinamizador de uma valiosa série de obras editadas pela Cosmos. Tive ocasião de falar numerosas vezes com ele a este respeito. Posso mesmo dar um testemunho directo. Propôs-me que escrevesse um volume sobre "A descoberta da Terra", ou seja o avanço histórico do conhecimento pelo ser humano do nosso planeta. Ainda há dias, arrumando papéis, encontrei muitas centenas, para não dizer milhares, de folhas com notas de leitura, apontamentos, capítulos já redigidos, ilustrações para esse trabalho. Não teve seguimento porque em 1941, pouco depois de libertado após uma segunda prisão, passei de novo à clandestinidade.

Ele dava valor ao valor dos jovens. Tinha a sua própria experiência: professor universitário aos 25 anos, professor catedrático antes dos 30. Criava nos alunos o gosto pelo estudo, pela ciência e pela cultura, estabelecendo ao mesmo tempo com muitos deles um relacionamento amistoso, de convívio e de liberdades. Ele era e gostava de afirmar-se um homem simples. Andava a pé na cidade em cabelo quando na sua época praticamente toda a gente usava chapéu. Vestia a sua samarra alentejana. Falava com os mais novos e os mais novos falavam com ele como se tivessem todos a mesma idade. Sentia-se bem com os jovens e os jovens sentiam-se bem convivendo com ele. No estudo, em iniciativas culturais, em conversas sobre os mais variados temas, em passeios, em fins de semana passados na praia. De sublinhar que nesses colectivos estavam sempre presentes, surgindo com uma espontaneidade correspondente ao pensamento e ao sentir da cada qual, os problemas da época.

O sentido ético e humanista do seu pensamento traduzia-se, entre muitas outras coisas, pela valorização da coragem na afirmação da verdade científica (Galileu Galilei) ou das grandes figuras da Índia como Tagore e Gandi. Tinha particular preferência literária por Romain Rolland e aconselhava a muitos jovens a leitura de "Jean-Christophe". Não menosprezava porém a influência política directa. Numa época em que a censura à imprensa e a proibição da importação de publicações comunistas, ele conseguia receber e facilitava a leitura aos jovens de Le Monde, semanário dos conhecidos intelectuais comunistas franceses Henri Barbusse e Romain Rolland, intelectuais aos quais estava também muito directamente ligado como responsável e animador em Portugal do Movimento pela Paz Amsterdam-Pleyel dirigido por esses dois intelectuais franceses.

O relacionamento que acabo de referir com B. Caraça tinha como adquirido que B. Caraça era comunista. Mas nas condições de clandestinidade a organização e os contactos no Partido eram compartimentados e nenhum membro do Partido se afirmava como tal, a não ser na sua ligação orgânica. De mim para mim, tinha por certo que B. Caraça era membro do Partido, mas não o poderia afirmar. O relacionamento partidário directo deu-se em 1943. Em 1941-42, época da reorganização do PCP, eu tinha de novo passado à clandestinidade e sido enviado como funcionário do Partido para o Norte do País. Em Outubro de 1942, tendo sido presos vários dirigentes do Partido, fui chamado de novo para Lisboa, a fim de integrar o Secretariado desfalcado com a prisão de Júlio Fogaça. Ora era precisamente Júlio Fogaça que assegurava na época a ligação partidária com B. Caraça. Fui eu encarregado de restabelece-la, o que sucedeu em 1943.

No mundo então envolvido na 2.ª Guerra Mundial, 1943 foi um ano marcado em Portugal pelo impetuoso ascenso do movimento operário, a afirmação do PCP como um grande partido nacional e o empreendimento pelo Partido da unidade antifascista na luta pela liberdade e a democracia. B. Caraça deu nessa conjuntura uma contribuição em alguns aspectos determinante para alcançarmos com êxito tal objectivo.

Lembro que o III Congresso do PCP (primeiro realizado na clandestinidade), noticiado no Avante! de Novembro de 1943, anunciava a criação do Movimento de Unidade Nacional Antifascista, e o Avante! de Janeiro de 1944 noticiava a formação do Conselho Nacional, orgão supremo do MUNAF.
O êxito deveu-se em grande parte à acção de B. Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. (...) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio.

O MUD (Movimento de Unidade Democrática) foi formado e desenvolveu-se como uma realização e expressão do MUNAF, aparecendo à luz do dia como um novo movimento e invocando o direito à legalidade. (...) De lembrar a Comissão Central do MUD (1946), que é de interesse citar, que contou na sua composição com Azevedo Gomes, Bento Caraça, Hélder Ribeiro, Maria Isabel Aboim Inglês, Fernando Mayer Garção, Manuel Mendes, Lobo Vilela, Alberto Dias, Manuel Tito de Morais, Demétrio Duarte, Luciano Serrão de Moura e Mário Soares. O MUD, assim como o MUD Juvenil, formado no seu desenvolvimento, foi perseguido e reprimido. B. Caraça foi demitido de professor, na vaga de demissões que atingiu também outros destacados antifascistas, alguns dos quais comunistas.

Essa atitude (de apagar a ligação de Bento Caraça ao PCP) insere-se na gigantesca operação de falsificação da história a que assistimos actualmente. Escrevem-se volumes, artigos e conferências e pronunciam-se discursos e declarações tentanto branquear a ditadura, a sua natureza fascista, a sua natureza de classe, e todos os seus crimes. Falseia-se a história da heróica resistência antifascista, da luta pela liberdade e a democracia. Insulta-se a revolução de Abril, que a reacção acusa de ter sido causadora da situação desastrosa actual a que nos conduziu a política e governos de direita. Falseia-se a história do levantamento militar, do levantamento popular, das realizações e conquistas da revolução democrática. Falseia-se a história das actividades e do processo contra-revolucionário que conduziu à situação de desastre nacional em que actualmente o país se encontra. E em toda esta operação de falsificação da história, é linha de força o apagamento, o silêncio ou a grosseira deturpação e a calúnia contra o PCP. Aos falsificadores da história não convém que o povo português saiba que eram comunistas homens a quem tanto devem o povo, o país, a cultura, a conquista da liberdade e da democracia.

Excerto da obra "A Cultura Integral do Indivíduo"

O excerto a seguir e as respectivas notas, foram retirados da obra A Cultura Integral do Indivíduo, um dos textos mais famosos de Bento de Jesus Caraça e ao mesmo tempo aquele que melhor caracteriza o pensamento e a obra do intelectual que reflecte sobre a cultura e a sociedade do seu tempo.

Eis a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geração - despertar a alma colectiva das massas.

Ou ela a realiza e ascendemos a um estado superior de unidade, ou fracassa, e amanhã assistiremos a um novo gesto de renúncia e o individual continuará a sobrepor-se ao colectivo numa adulteração criminosa da moral social.

Precisamos, para não trair a nossa missão, de nos forjarmos personalidades íntegras, de analisarmos o nosso tempo e de actuar como homens dele. Como homens que sabem distinguir o fundamental do acessório, que, na resolução de um problema, não se deixam perder no emaranhado dele, nem cegar pelas nuvens de fumo que os interessados pela sua não solução a todo o momento e infatigavelmente lançam.

Dessas nuvens de fumo, tantas e de tão variados aspectos, quero referir-me hoje a uma apenas - a confusa questão das elites. Confusa e delicada.

Vejamos, em primeiro lugar, qual é, a este respeito, a tese corrente. Com pequenas variantes, pode exprimir-se assim. Em todos os tempos, o progresso da civilização, o florescimento das ciências, das letras e das artes, foi obra de uma elite, mais ou menos reduzida; e deve ser sempre assim - a massa geral da humanidade não é acessível a certas preocupações que só espíritos elevados sentem; a guarda e a propulsão das instituições culturais da sociedade deve ser portanto confiada a um grupo restrito, a uma elite, a qual, só, tem direito a orientar superiormente os destinos do agregado.

Muito bem. Analisemos agora com algum cuidado esta tese para ver o que nela se contém de verdadeiro.

Uma dúvida se forma, logo após o primeiro exame: as elites propulsionadoras, em cada período histórico, do desenvolvimento científico, literário, artístico, foram realmente aquelas que, nesse período, ditaram a forma de constituição da sociedade, a orientaram, regulam o seu funcionamento orgânico? por outras palavras, elite científica e cultural e classe dirigente, são a mesma coisa? ou, melhor ainda, a primeira está compreendida na segunda? Uma consulta à história fornece resposta imediata pela negativa.

É abrir esse grande livro e prestar ouvidos aos queixumes e protestos com que aqueles homens verdadeiramente de elite, aqueles que, alguns séculos mais tarde, dão o tom ao mundo da alma e do pensamento, respondem às perseguições que os seus contemporâneos das classes dirigentes Ihes movem.

Incompreensão completa duma forma nova de pensar, temor de que um ataque à rotina abale os alicerces de um poderio egoísta de natureza espiritual ou material, vários são os elementos que se conjugam para fazer desses homens um grupo à margem, que só à força de heroísmo consegue conservar aceso, e transmitir às gerações seguintes, o facho da cultura.

Passam-se ao menos as coisas de maneira diferente no século em que vivemos? Devemos confessar, em homenagem àquilo que temos como a verdade, que, apesar de as condições actuais de vida constituírem, dentro de certos limites, um meio mais propício para a luta de ideias, não deixa porém de ser certo que a actuação das elites, sempre que queira exercer-se contra os interesses da classe dirigente, está sujeita a perigos análogos aos de outros tempos.

Quando é preciso, queimam-se livros, demitem-se professores, fecham-se fronteiras, abrem-se prisões, e se na Indochina um povo pretende conservar a autonomia das suas instituições e defender-se contra a civilização do álcool que querem impor-lhe, lá estão os tribunais franceses para distribuir, com mão larga e generosa, em nome dos sagrados princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade, dezenas de condenações à morte (*) .

Mas, se a identificação de classe dirigente e elite cultural nunca se deu nem se dá, para quê o pretender estabelecê-la?

Razão evidente e única - porque a classe dirigente, não tendo que fazer de momento, nem necessitando, dessas antecipações geniais no domínio da ciência e da cultura (aos seus autores é dada a liberdade de morrer na miséria), precisa no entanto daquilo a que podemos chamar valores científicos e culturais de segundo plano, carece tomar posse do que da ciência vai derivando constantemente para as aplicações, a fim de adquirir uma base mais sólida de existência e domínio.

E como, por outro lado, ela sabe bem que mal vai ao seu poderio quando ele é exclusivamente de natureza material, fabrica, para seu uso próprio, um conceito novo de elite, deformador do verdadeiro, e, armada com esse conceito novo e servida por aqueles que se prestam a dar-Ihe corpo, pretende aparecer como suporte único do movimento cultural, relegando ao domínio do subversivo, a que é preciso dar caça, tudo aquilo que contrariar os seus cânones.

E devemos concordar em que tem realizado a primor a essa tarefa. O trabalho de submissão, de lamber de botas, da parte das chamadas camadas intelectuais, tem sido duma perfeição dificilmente excedível. Digamos, para irmos até ao fim, que os mais excelsos nesse mister são frequentemente aqueles que, partidos das camadas ditas inferiores, se guindaram, umas vezes a pulso, outras em acrobacia de palhaço, a posições que deveriam utilizar para defesa dos bens espirituais e que só usam para trair os seus antigos irmãos no sofrimento.

Problema grave, e tanto, que não faltam as vozes que, para o resolver, advogam um abandono da cultura por verem nela, não um meio de elevar, mas sim de diminuir a condição humana. Terão razão os que assim pensam? Conduz a civilização necessariamente a uma escravização do homem?

Para podermos responder a estas perguntas, temos que começar por definir os termos e pôr depois convenientemente o problema.

O que é o homem culto? É aquele que:

1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;

2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;

3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior preocupação máxima e fim último da vida.

Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.

A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade.

E para atingir esse cume elevado, acessível a todo homem, como homem, e não apenas a uma classe ou grupo, não há sacrifício que não mereça fazer-se, não há canseira que deva evitar-se. A pureza que se respira no alto compensa bem fadiga da ladeira.

Condição indispensável para que o homem possa trilhar a senda da cultura - que ele seja economicamente independente. Consequência - o problema económico é, de todos os problemas sociais, aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. Tudo aquilo que for empreendido sem a resolução prévia, radical e séria, desse problema, não passará, ou duma tentativa ingénua, com vaga tinta filantrópica, destinada a perder-se na impotência, ou de uma mão-cheia de pó, atirada aos olhos dos incautos.

Não deve também confundir-se cultura com civilização.

O grau de civilização de um povo mede-se pela quantidade e qualidade dos meios que a sociedade põe à disposição do indivíduo para lhe tornar a existência fácil; pelo grau de desenvolvimento dos seus meios de produção e distribuição; pelo nível de progresso dos seus meios de produção e distribuição; pelo nível de progresso científico e utilização que dele se faz para as relações da vida económica.

O seu grau de cultura mede-se pelo conceito que ele forma do que seja a vida e da facilidade que ao indivíduo se deve dar para a viver; pelo modo como nele se compreende e proporciona o consumo; pela maneira e fins para que são utilizados os progressos da ciência; pelo modo com entende a organização das relações sociais e pelo lugar que nelas ocupa o homem.

Assim, um povo pode ser civilizado e não ser culto e vice-versa. Não pode, por exemplo, comparar-se o nível desenvolvido de civilização do povo americano actual com o incipiente do povo ateniense do período áureo, como não podem comparar-se os seus respectivos graus de cultura, muito superior o deste ao daquele (**) . Entre um Péricles e um Hoover medeia uma distância enorme, aquela mesma que separa o povo que aplicava a lei do ostracismo para evitar que um indivíduo influente pudesse exercer coacção sobre a liberdade dos cidadãos, daquele outro povo em que há anos foi possível que um grupo de homens metesse outro homem, porque era revolucionário, dentro de uma gaiola e o andasse mostrando de terra em terra, a tanto por cabeça.

Definidos os termos, podemos agora resolver o problema posto - o problema do homem, unidade social, perante a cultura.

Se o desenvolvimento da civilização, entendida como acima, só por si, pode conduzir ao automatismo e à consequente escravização do homem, o que nos é mostrado pela civilização capitalista actual, é isso devido, não a um alto mas sim a um baixo grau de cultura que permite que os meios de progresso sejam utilizados num ambiente de completo abandono dos objectivos superiores da vida.

E esse abandono, e a adulteração que se lhe segue, só podem ser evitados pelo reforçamento intenso da cultura; esta aparece-nos assim como condicionador e correctivo constante da marcha da civilização.

Como se põe então agora a questão das elites? Evidentemente que o cultivo e progresso da ciência, bem como a sua aplicação à vida corrente da sociedade, hão-de ser sempre obra de grupos especializados - prospectores e realizadores; chamemos-lhe elites, se assim o quiserem - existem e existirão, como existem e existirão as elites das outras profissões e actividades.

Mas o que não deve nem pode ser monopólio de uma eIite, é a cultura; essa tem de reivindicar-se para a colectividade inteira, porque só com ela pode a humanidade tomar consciência de si própria, ditando a todo o momento a tonalidade geral da orientação às elites parciais.

Só deste modo poderá levar-se a bom termo a realização daquela tarefa essencial que atrás vimos ser o problema central posto às gerações de hoje - despertar a alma colectiva das massas.

Houve quem dissesse um dia que as gerações dos homens são como as das folhas, passam umas e vêm outras.

Está na nossa mão o desmentir o significado pessimista desta frase.

Só figuram de folhas caídas, para uma geração, aquelas gerações anteriores cujo ideal de vida se concentrou egoisticamente em si e que não cuidaram de construir para o futuro pela resolução, em bases largas, dos problemas que Ihes estavam postos, numa elevada compreensão do seu significado humano.

Essa concentração egoísta tem um nome - traição, e se hoje trairmos, será esse o nosso destino - ser arredados com o pé, como se arreda um montão de folhas mortas.

E não queiramos que amanhã tenham de praticar para connosco esse gesto, impiedoso mas justiceiro, exactamente o mesmo que hoje nos vemos obrigados a fazer para com aquilo que, do passado é obstáculo no nosso caminho.

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(*) Estas palavras foram escritas em 1933. Se o fossem agora é evidente que outros e mais dramáticos exemplos teriam sido escolhidos. Onde está a elite cultural alemã? Einstein? Freud? Onde está a elite que dirigiu o corpo hoje esfacelado da Checoslováquia? e a Espanha? (nota da 2.ª edição, 1939).

(**) Fala-se evidentemente, do tipo médio da classe superior num ou noutro caso. Se nos reportarmos às classes inferiores, não sei se haverá grande diferença entre a condição de um negro das plantações de algodão e a de um escravo grego, fosse ele escravo de um Aristóteles ...