60 anos hiroshima

Sessenta anos de um crime monstruoso

AUTOR
Colaborador da Secção Internacional



Ao longo de 2005 assinalou-se o 60.º aniversário da vários acontecimentos importantes ligados à derrota do nazi-fascismo. Numerosas foram as cerimónias oficiais onde os dirigentes políticos das potências capitalistas europeias e norte-americana procuraram reescrever a História daquele conflito. Apagou-se o papel decisivo e central que desempenharam na derrota do nazi-fascismo a União Soviética, o seu povo e o Exército Vermelho. Deixaram-se no esquecimento as decisivas batalhas de Estalinegrado, Moscovo, Leninegrado, Kursk, Kiev, Sebastopol e tantas outras. Silenciaram-se as resistências populares armadas em numerosos países e o papel ímpar que os comunistas desempenharam na derrota do nazi-fascismo. E foi escassa a atenção oficial dedicada ao 60º aniversário doutra data importante e funesta na História da Humanidade: o início da era atómica, com o lançamento, por parte do imperialismo norte-americano, das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaqui.
O embaraço na "comemoração" das datas de 6 e 9 de Agosto de 1945 é evidente. Estamos perante um enorme crime. O historiador norte-americano Ronald Takaki estima em 300 mil o número de mortos resultante dos ataques nucleares dos EUA (1). Este número terrível não transporta todo o horror do pesadelo nuclear, que é descrito duma forma muito sóbria, mas muito impressionante no livro Hiroshima (2) do jornalista norte-americano John Hersey. Há dois anos, o Presidente da Câmara de Hiroshima afirmava: "o efeito conjunto do calor, da explosão e da radiação mataram instantaneamente cem mil seres humanos e reduziram Hiroshima a um monte de destroços - uma experiência que foi descrita pelos sobreviventes como "o fim do mundo". As condições na cidade logo após a explosão são impossíveis de transmitir por palavras. As pessoas tornaram-se fantasmas, a sua pele queimada ou a cair dos seus corpos, com a carne e até os ossos expostos. Mães que procuravam deseperadamente acudir aos seus bebés queimados. Bebés que se agarravam desesperadamente às suas mães mortas ou moribundas. Os que conseguiram sobreviver tinham perdido tudo, até a esperança. Muitos dos sobreviventes invejavam sinceramente os que tinham morrido. Aliás, sabemos dos relatos de testemunhas que muitas vítimas se suicidaram logo que ganharam consciência da sua situação" (3).
A justificação oficial para a utilização da arma nuclear contra os civis de Hiroshima e Nagasaqui sempre foi a de que a alternativa seria uma invasão terrestre do Japão que conduziria à morte de centenas de milhar de soldados norte-americanos (4). A tese é que é aceitável matar centenas de milhar de civis japoneses para salvar "centenas de milhar" de soldados norte-americanos. Mas a própria alternativa é uma falsa questão. O Japão era, em Agosto de 1945, um país à beira do colapso. Os seus aliados nazi-fascistas europeus haviam sido derrotados e a guerra na Europa terminara há três meses. As principais cidades japonesas estavam a ser durissimamente castigadas pelos bombardeamentos anglo-americanos. Apenas um mês após o blitz anglo-americano sobre a cidade alemã de Dresden, que matou muitas dezenas de milhar de pessoas numa noite, Tóquio sofreu uma sorte análoga: na noite de 9 para 10 de Março morreram cerca de 100 000 pessoas no gigantesco incêndio provocado pelos bombardeamentos (5). As tropas japonesas recuavam em todas as frentes. E uma nova frente estava prestes a abrir-se. Na Cimeira de Ialta, em Fevereiro de 1945, a União Soviética comprometera-se a entrar em guerra contra o Japão três meses após o fim da guerra na Europa. Esse calendário foi cumprido escrupulosamente, tendo a URSS declarado guerra ao Japão no dia 9 de Agosto. Desde Janeiro de 1945 que o poder em Tóquio considerava a hipótese da rendição e havia já contactos de emissários japoneses com os aliados para saber quais as eventuais condições (6).
Nem os principais comandantes militares dos EUA consideravam necessária a utilização da nova arma atómica. O General Eisenhower, que viria a ser Presidente dos EUA, confidenciou em Potsdam que "tinha sérias reservas" e considerava "completamente desnecessária" a utilização do nuclear, uma vez que o Japão "já estava derrotado" (7). O General MacArthur, comandante supremo das tropas aliadas no Pacífico e mais tarde comandante das forças americanas na guerra contra a Coreia, partilhava dessa opinião, considerando o uso da bomba "totalmente desnecessária do ponto de vista militar". Mais longe ia o Almirante Leahy, Chefe de Estado Maior, que considerava nem sequer ser necessária qualquer invasão do território japonês para assegurar a sua derrota (8).
As razões de fundo para a decisão política de lançar as bombas nucleares sobre duas cidades japonesas não tiveram tanto a ver com a II Guerra Mundial, quanto com a nova ordem mundial que iria emergir no pós-guerra. Os dirigentes das principais potências capitalistas mundiais estavam preocupados com os avanços do processo de libertação mundial que inevitavelmente iriam surgir no final desta segunda grande catástrofe em que o capitalismo havia lançado a Humanidade, no curto espaço de 40 anos. Estavam preocupados com o enorme prestígio e autoridade ganhos pela União Soviética pelo seu papel decisivo na derrota do nazi-fascismo. Estavam preocupados com a participação de amplas massas populares na resistência armada antifascista a nível mundial e com a grande influência que os comunistas haviam adquirido em numerosos países pela sua contribuição decisiva para essa resistência. Temiam que a entrada em cena dessas vastas massas, desejosas de justiça social e nacional, e revoltadas com as suas classes dirigentes e com o seu papel de apoio, conivência ou capitulação perante a mais bárbara forma de dominação gerada pelo capitalismo, pudesse levar a transformações sociais profundas, de natureza anticapitalista. O objectivo de conter o avanço da libertação dos trabalhadores e dos povos do mundo tornava-se assim central nas preocupações dos dirigentes das principais potências capitalistas.
Winston Churchill confessa de forma dissimulada esta preocupação, ao discutir as razões para a utilização da recém-testada bomba atómica na sua famosa e extensa história da II Guerra Mundial. Logo após referir o argumento de salvar as vidas de soldados anglo-americanos, acrescenta: "E além disso, não precisaríamos dos Russos. O fim da guerra japonesa já não dependia da entrada em massa dos seus exércitos [...]. Não tínhamos necessidade de lhes pedir favores. [...] escrevi ao Sr. Eden: "é muito claro que os Estados Unidos não desejam neste momento a participação da Rússia na guerra contra o Japão"" (9). Evidentemente, havia preocupações maiores do que "salvar a vida dos nossos rapazes"... Mais claro é o director do Projecto Manhattan (o projecto de desenvolvimento das bombas atómicas), General Groves, que afirmou num testemunho perante a Comissão para a Energia Atómica dos EUA: "Desde cerca de duas semanas após assumir o cargo deste Projecto, nunca tive qualquer ilusão de que a Rússia era o nosso inimigo, e o Projecto foi conduzido nessa base" (10). E assim, os civis japoneses de Hiroshima e Nagasaqui foram sacrificados pelos dirigentes do imperialismo norte-americano, para mostrar ao mundo que possuíam uma nova e terrível arma e que estavam dispostos a utilizá-la.
Nas suas memórias, Churchill descreve a criação da bomba atómica como "um acontecimento tremendo na história humana". Mas, surpreendentemente, afirma que nos círculos dirigentes anglo-americanos "nunca houve um momento de discussão sobre se deveria ou não usar-se a bomba atómica. [...] Houve um acordo unânime, automático, sem questionamentos, à volta da nossa mesa; nem nunca ouvi a mínima sugestão de que devêssemos proceder de outra forma" (11). Querendo mostrar a força das suas convicções, Churchill mostra apenas o lado profundamente criminoso dos círculos dirigentes do imperialismo. Natureza criminosa que continua bem patente na actualidade.
Tal como nos nossos dias, este crime maior do imperialismo norte-americano foi rodeado de inúmeras mentiras. O Presidente Truman, anunciando o ataque a Hiroshima no seu comunicado à imprensa de 6 de Agosto de 1945 afirmou que Hiroshima era uma "base do Exército japonês", nunca referindo tratar-se de uma cidade com 350 mil habitantes (12). Três dias depois, num discurso pela rádio, Truman afirmou: "o mundo assinalará que a primeira bomba atómica foi lançada sobre Hiroshima, uma base militar. Isto deveu-se ao nosso desejo de evitar, na medida do possível, a morte de civis" (13). Durante anos negaram-se os efeitos da radioactividade libertada pelas bombas. Tal como hoje se negam os efeitos terríveis das armas contendo urânio empobrecido, usadas em larga escala no Iraque e nos Balcãs. O famoso jornalista australiano Wilfred Burchett, que foi o primeiro jornalista anglo-saxónico a entrar em Hiroshima (à revelia das tropas americanas) após o lançamento da bomba atómica, escreveu artigos no jornal Daily Express relatando os efeitos da radioactividade que tinha presenciado. Conta Burchett: "Eu descrevia a radiação e os seus efeitos, e isto era algo que era negado. Foi convocada uma conferência de imprensa especial para atacar o meu relato da radiação atómica. O homem que controlava a coisa era o número dois, após o General que controlava o Projecto Manhattan" (14).
Sessenta anos depois da barbárie atómica de Hiroshima e Nagasaqui, o mundo vive novos perigos. O imperialismo pensa não ter já entraves e lançou uma ofensiva global para impor a sua hegemonia planetária. Os bárbaros que governam em Washington, Londres, Tel Aviv e outras capitais arrogam-se o direito de utilizar todos os meios ao seu alcance. Multiplicam-se os sinais de que a utilização de armas nucleares é uma das opções consideradas. Os documentos oficiais norte-americanos, como o Nuclear Posture Review, encaram essa possibilidade, indicando até os nomes de seis países que podem vir a ser alvos nucleares: Irão, Coreia do Norte, Iraque (o documento é de 2002), Síria, China e Rússia (15). No início de Julho, o Senado dos EUA votou a favor do financiamento dos planos de desenvolvimento de novas armas nucleares (16).
Importa reter as recentes palavras dum antigo falcão, o ex-Ministro da Defesa dos EUA no tempo da guerra do Vietname, Robert McNamara, que ao discursar na Conferência da ONU sobre o Tratado de Não-Proliferação, afirmou: "Se tivesse que caracterizar, numa única frase, as políticas nucleares dos EUA e da NATO, diria que são imorais, ilegais, desnecessárias do ponto de vista militar e muito, muito perigosas". Está nas mãos dos povos impedir novos pesadelos nucleares.

Notas
  • (1) Hiroshima: why America dropped the atomic bomb, R. Takakai, Little, Brown and Company, 1995, p. 47.
  • (2) Editado em Portugal pela Antígona, 1997.
  • (3) http://www.city.hiroshima.jp/shimin/heiwa/unitar-speech.html
  • (4) Winston Churchill, na sua história da II Guerra Mundial chega a falar num milhão de mortos nas fileiras dos EUA, e meio milhão de britânicos (The Second World War, Vol. VI, p. 552, Penguin, 1985).
  • (5) 1939-1945, uma guerra desconhecida, de Paul-Marie de la Gorce, Editorial Caminho, 2004, p. 488.
  • (6) Idem, p. 487- 490.
  • (7) Para as fontes, veja-se o livro de R. Takaki já citado, p. 30.
  • (8) Idem, p. 31.
  • (9) The Second World War, Winston Churchill, Vol. VI, p. 553, Penguin, 1985.
  • (10) Hiroshima: why America dropped the atomic bomb, R. Takakai, Little, Brown and Company, 1995, p.7.
  • (11) The Second World War, Winston Churchill, Vol. VI, p. 553, Penguin, 1985.
  • (12) O texto integral está disponível em http://www.cddc.vt.edu/host/atomic/hiroshim/truman1.txt
  • (13) Embora o discurso seja do domínio público, a sua reprodução na Internet foi bizarramente sujeita a direitos de autor, encontrando-se o trecho aqui transcrito disponível em http://www.dannen.com/decision/hst-ag09.html.
  • (14) Entrevista concedida a John Pilger e Michael Coren, no seu livro The Outsiders, Quartet Books, 1985.
  • (15) Excertos desse documento encontram-se em http://www.globalsecurity.org/wmd/library/policy/dod/npr.htm.
  • (16) Artigo do jornalista H. Josef Hebert, da Associated Press, 2.7.05.
  • (17) Reuters, 24.5.05.


"O Militante" - N.º 278 Setembro/ Outubro 2005