resistência na II guerra

A Resistência e o factor popular na Vitória

Por Albano Nunes
Membro da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central do PCP



A história da 2.ª Guerra Mundial não pode ser escrita sem considerar a Resistência e a luta popular antifascista e libertadora, pacífica e violenta, armada e não armada, legal e semi-legal ou clandestina, de massas ou de vanguardas audaciosas profundamente enraizadas nos seus respectivos povos.
A historiografia burguesa gosta de passar ao lado desta realidade que lhe é particularmente incómoda porque ela não só evidencia o papel determinante das massas no processo de transformação social, como obriga a reconhecer que a vitória sobre o nazi-fascismo tem uma profunda marca de classe anti-capitalista e anti-burguesa. E isto por quatro razões fundamentais. Porque o fascismo e o nazismo são um produto do próprio capitalismo, a ditadura terrorista do capital financeiro, na definição que dele deu a Internacional Comunista (1). Porque a escalada de Hitler só foi possível, primeiro com a complacência e a colaboração da Grã-Bretanha, França e outras democracias burguesas (2), e depois pela cobardia e traição das burguesias nacionais frente ao avanço das tropas nazis. Porque foram os comunistas e a classe operária dos países ocupados que ergueram a bandeira da luta de libertação nacional contra os invasores, juntando à sua volta numa frente amplamente unitária todos os patriotas e antifascistas sinceros. Porque foi a URSS, o primeiro país dirigido por operários e camponeses que, com o fervor patriótico e revolucionário do seu povo, deu a mais heróica e decisiva contribuição (mais de 20 milhões de mortos) para libertar a Humanidade do flagelo nazi-fascista.
Claro que a história da vitória é também, e em medida decisiva, a história da derrota militar da mais poderosa máquina de guerra e destruição do mundo. Uma história que envolveu terríveis batalhas militares, a perda de muitos milhões de vidas humanas, destruições colossais e cujo principal símbolo é militar: a imagem de um jovem soldado soviético colocando a bandeira da URSS na cúpula do Reichtag após a entrada em Berlim do glorioso Exército Vermelho. Mas por detrás de tudo isto estão as massas populares, os seus valores, os seus ideais, as suas aspirações libertadoras. De outro modo não teria sido possível vencer a longa batalha de Leninegrado nem iniciar a partir de Stalinegrado, a heróica cidade do Volga, a contra-ofensiva vitoriosa que encheu de esperança e reacendeu a confiança dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo, incluindo Portugal, onde é precisamente na primeira metade da década de 40 que, a par da reorganização do PCP e da sua transformação em grande partido nacional, o movimento operário e a unidade antifascista dão um gigantesco salto em frente (3).

Os comunistas na resistência

O exemplo mais expressivo e mais conhecido em Portugal da resistência à ocupação fascista é o da França. Aí, apesar da violência terrorista da repressão, a resistência nunca foi decapitada nem paralisada. Poucos dias depois da entrada das tropas alemãs em Paris (14 de Junho de 1940) o PCF lança o célebre Apelo à luta clandestina e à acção armada assinado por Maurice Thorez e Jacques Duclos, apelo que é ouvido por um povo traído por sucessivos governos burgueses que, depois de terem prendido os deputados comunistas e ilegalizado o PCF, acabaram por render-se entregando Paris e grande parte da França aos invasores e instalando em Vichy o governo fascista e colaboracionista de Petain. Das greves operárias à acção guerrilheira dos comandos de «franc tirers» desenvolveu-se por todo o país um poderoso movimento encabeçado pelos comunistas, ao qual aderiu o melhor da intelectualidade francesa. Nem as mais ferozes retaliações conseguiram travar um movimento que chegou a imobilizar enormes contingentes das forças de ocupação adquirindo também um forte peso militar. Milhares e milhares de trabalhadores e de patriotas foram presos, assassinados, deportados para campos de concentração na Alemanha. Mas a rede clandestina da resistência não foi paralisada e o prestigiado «L’Humanité», então órgão central do PCF, continuou a circular e a incitar à luta libertadora (4). A libertação de Paris em 18 de Agosto de 1944 e mais tarde a formação do primeiro governo do pós-guerra presidido pelo general de Gaulle (5) são produto de uma luta heróica em que o PCF, com cerca de 75.000 dos seus membros mortos, ganhou o honroso título de «o partido dos fuzilados». Se, com 26% dos votos nas primeiras eleições livres, o PCF se tornou o maior partido francês, isso se deve ao lugar certo que soube ocupar na luta de classes no momento porventura mais sombrio da história da França.

Luta antifascista alarga-se a todo o mundo

Com envergadura e características diversificadas, a resistência antifascista e a luta contra a guerra estendeu-se por todo o mundo. Na Europa em primeiro lugar, porque epicentro do conflito devastador que ceifou mais de 50 milhões de vidas, mais de metade das quais entre a população civil. Mas também nos demais continentes, tenham ou não sido palco de operações militares ou da imposição de ditaduras. As transformações revolucionárias anticolonialistas e os avanços progressistas do pós-guerra não teriam sido possíveis sem que por todo o lado, sobretudo após o imparável avanço do Exército Vermelho em direcção a Berlim, não crescessem os sentimentos antifascistas e não se desenvolvessem, sob influência directa de partidos comunistas ou do prestígio da URSS e da ideologia marxista, importantes movimentos de resistência e de luta progressista, incluindo nos EUA. Fora da Europa o mais original e espectacular exemplo – que de modo algum pode ser esquecido na hora de celebrar o 60º aniversário da Vitória – é a China, onde a revolução conduzida pelo Partido Comunista Chinês é inseparável da luta patriótica contra o invasor japonês, contribuindo decisivamente para a derrota do Japão, e onde, em 1 de Outubro de 1949, era solenemente proclamada a República Popular da China (6).
Na Europa a resistência desenvolveu-se com vigor, a Leste e a Oeste, incluindo na retaguarda das linhas nazis em território soviético. Assumindo em geral a forma de luta armada com destacamentos guerrilheiros, comandos, acções de sabotagem, alvos selectivos (7). Com formas de organização unitária envolvendo comunistas, socialistas, democratas cristãos, simples patriotas sem partido, mas onde em geral os comunistas desempenham um indiscutível papel de vanguarda. Clandestina, invariavelmente enraizada no interior dos respectivos países paredes meias com a besta fascista e colaboracionista, ao passo que a resistência burguesa, quando existiu (como no caso exemplar da Polónia) em geral se sediou no estrangeiro, muitas vezes agindo (como no caso igualmente exemplar da Grécia) como força avançada do imperialismo anglo-americano. É essa ligação popular profunda da resistência que explica que, terminada a guerra, as forças antifascistas e progressistas se tornassem dominantes. Apesar de todos os preconceitos, os partidos comunistas, que foram a alma da resistência na maior parte dos países e as principais vítimas do ódio e da repressão nazi-fascista, reforçaram no Ocidente a sua influência política, chegando mesmo a fazer parte dos governos do imediato pós-guerra na França, Itália, Áustria, Bélgica, Holanda, Dinamarca. No Leste da Europa foi-se ainda mais longe, com a constituição de governos revolucionários, a liquidação do poder da grande burguesia, a realização de profundas transformações democráticas e populares na Polónia, Hungria, Leste da Alemanha (posteriormente RDA), Bulgária, Checoslováquia, Roménia, Jugoslávia e Albânia. Transformações socialistas que beneficiaram sem dúvida da ajuda propiciada pela libertação soviética, mas só possíveis pela real influência de massas (indiscutível em países como a Checoslováquia ou a Bulgária com partidos comunistas históricos e uma forte resistência à ocupação) dos comunistas e seus aliados socialistas de esquerda e outros.

O exemplo jugoslavo

Justifica-se uma referência especial ao caso da Jugoslávia, pela extraordinária epopeia política e militar que representou e pelo significado que encerra tendo em vista a dramática situação actual na região. Apenas três meses após a capitulação do velho poder antipopular e do desmembramento do país, em Junho de 1941, o Partido Comunista da Jugoslávia lançou um apelo à preparação da insurreição geral armada. Sob a direcção dos comunistas, as diferentes nacionalidades do mosaico jugoslavo uniam-se contra o invasor, forjavam um Exército Popular de Libertação que em 1943 tinha já 300 mil homens em armas, organizavam por todo o país comités populares de libertação como órgãos de um futuro poder revolucionário, constituíam o Comité Nacional de Libertação presidido por Tito, libertavam vastas regiões do país lançando-se finalmente, no contexto favorável do avanço do Exército Vermelho, a 20 de Outubro de 1944, à libertação de Belgrado. A resistência jugoslava foi uma realidade poderosa que não pode ser esquecida. Ela mostra quanto de progresso e amizade multinacional pode a luta patriótica e revolucionária e quanto de destrutivo, reaccionário e desumano pode uma contra-revolução imposta do exterior pela guerra e a ocupação imperialista, cuja dramática expressão é bem visível na Bósnia, na Macedónia, no Kosovo.
Aqui se deixam alguns factos, apontamentos e reflexões sobre uma vertente, frequentemente esquecida mas decisiva, da Vitória – a resistência popular antifascista. E sobre o papel que nela desempenharam os comunistas, cuja coragem e determinação não seriam possíveis sem a estreita ligação à classe operária e ao povo, sem aquela qualidade intrínseca que é o de existirem para servir e combater todas as formas de injustiça e de desigualdade lá onde se manifestem e particularmente importante na hora actual, sem a compreensão profunda de que a sua luta, dure o tempo que durar e custe o que custar, se situa do lado certo da História.
À Vitória sucederam-se transformações sociais históricas em todo o mundo. Mas sucedeu-se também a «guerra fria» e mais tarde as dramáticas derrotas do socialismo na URSS e no Leste da Europa. Mas a História é assim mesmo. Progride irregularmente, no meio de grandes contradições, de avanços e recuos, de vitórias e derrotas. Hoje vivemos tempos de dramáticos retrocessos e de novos grandes perigos para toda a humanidade. Mas celebrando a Resistência daqueles anos sombrios e, sobretudo, estudando-a e combatendo as omissões e deformações dos nossos adversários de classe, estamos a preparar tempos de novos avanços libertadores.

Notas
  1. Em 1935, o VII Congresso da Internacional Comunista fez uma análise profunda das raízes sócio-económicas e ideológicas do fascismo e traçou a orientação para a acção dos comunistas no complexo período que precedeu a guerra.
  2. Trata-se da denominada «política de apaziguamento», cuja expressão mais conhecida é o Pacto de Munique de 30 de Setembro de 1938 que reconheceu a ocupação alemã dos Sudetas, desmembrou a Checoslováquia e abriu caminho à guerra. O paralelismo com o que hoje se passa em relação à ofensiva agressiva do imperialismo norte-americano, é evidente.
  3. São exemplos particularmente significativos, em 1943, as greves de Julho/Agosto na região de Lisboa e Margem Sul, as maiores até então sob o fascismo, e a criação em Dezembro do MUNAF, Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista.
  4. O «L’Humanité» clandestino terá difundido até à libertação de Paris mais de 50 milhões de exemplares (A. Rubbi). Entretanto há já vários anos que deixou de ser órgão central de PCF e hoje já não é propriedade sua.
  5. Não seria sério minimizar o papel da burguesia patriótica reunida em torno do general de Gaulle e do Comité Francês de Libertação Nacional sediado no exterior do país, nem a corajosa acção clandestina de muitos socialistas e outros antifascistas, que vieram a confluir com os comunistas no Conselho Nacional de Resistência. Mas o papel dos comunistas foi decisivo. No início de 1945, a Frente Nacional, criada e dirigida pelo PCF, contava com dois milhões de pessoas.
  6. Foi com a invasão da Manchúria pelo Japão em Setembro de 1931 que praticamente se iniciou a 2.ª Guerra Mundial.
  7. Muito pobre teria sido a resistência se então tivessem triunfado certas teses de «não violência» com que alguns hoje procuram cobrir o seu afastamento de posições anti-imperialistas, se não tivesse respondido à violência terrorista do ocupante com a violência libertadora.


«O Militante» - N.º 276 Maio/Junho 2005